Vulnerabilidades relacionadas à dívida em economias em desenvolvimento representam uma “grande barreira” ao crescimento inclusivo. A afirmação foi feita por Taiwo Oyedele, presidente do Grupo das 24 nações (G24) e ministro das Finanças da Nigéria, durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial. Oyedele destacou que os governos desses países enfrentam um peso cada vez maior de suas dívidas, com estimativas apontando que as nações em desenvolvimento pagam cerca de US$ 500 bilhões a mais por seus empréstimos em comparação com as economias desenvolvidas, em um cenário de déficits fiscais crescentes.

O cenário é agravado por choques externos, como a guerra no Oriente Médio, o aumento dos preços dos alimentos devido ao fenômeno El Niño e a alta global nas taxas de juros, que elevam os custos de empréstimo. Esses fatores combinados afetam diretamente o progresso dos mercados emergentes e das economias em desenvolvimento na busca por uma transformação econômica que gere empregos e promova inclusão.

Apoio financeiro em foco

Diante desse quadro, os membros do G24 apelam por maior apoio do FMI e do Banco Mundial, solicitando financiamento mais acessível e com custos reduzidos para os países mais vulneráveis. A intenção é viabilizar a mobilização de capital privado e a redução de gastos públicos, liberando recursos para investimentos produtivos. Iyabo Masha, diretora do secretariado do G24, ressaltou que a dívida restringe o crescimento, pois os países acabam destinando a maior parte de seus recursos para o serviço da dívida, em detrimento de investimentos em crescimento.

Masha, no entanto, apontou que melhorias recentes na estrutura da dívida soberana podem auxiliar na resolução mais rápida de crises. O caso do Senegal, que busca um acordo com credores até dezembro, foi citado como um exemplo de progresso. A nação africana busca um acordo de princípio com credores oficiais e detentores de títulos, após uma crise de dívida que, segundo analistas, atingiu US$ 13 bilhões.

Ameaça da IA e a exclusão digital

Além dos desafios fiscais e de endividamento, as economias em desenvolvimento também enfrentam o risco de ficar para trás na adoção da inteligência artificial (IA). O FMI reduziu suas previsões de crescimento para a América Latina e o Caribe, indicando que a região tem se beneficiado pouco do boom da IA, que impulsionou outras economias. Oyedele expressou preocupação com a possibilidade de a IA ampliar a exclusão digital, especialmente para países que ainda não atingiram determinados níveis de desenvolvimento, correndo o risco de começar do zero.

Para que esses países possam se beneficiar da IA, seria necessário, por exemplo, um bom acesso à eletricidade para atrair investimentos em centros de dados. Sem essa infraestrutura básica, a incorporação da IA e seus benefícios podem demorar a se materializar, aprofundando o fosso digital global e dificultando ainda mais a convergência econômica.

Implicações para o crescimento global

O endividamento crescente em países em desenvolvimento tem implicações diretas para a estabilidade e o crescimento da economia global. Quando essas nações enfrentam dificuldades para honrar seus compromissos, o risco de inadimplência aumenta, o que pode gerar instabilidade nos mercados financeiros internacionais e afetar a confiança dos investidores. A redução dos gastos públicos para lidar com a dívida também significa menos investimento em infraestrutura, educação e saúde, elementos cruciais para o desenvolvimento sustentável e a geração de empregos.

Essa situação pode levar a um ciclo vicioso de baixo crescimento e alto endividamento, dificultando a saída de milhões de pessoas da pobreza e ampliando as desigualdades. Para as economias desenvolvidas, a instabilidade em mercados emergentes pode se traduzir em menor demanda por seus produtos e serviços, além de potenciais contágios financeiros.

O que observar daqui para frente

O cenário de endividamento em países em desenvolvimento exige atenção contínua e ações coordenadas. Será crucial observar como o FMI e o Banco Mundial responderão aos apelos por financiamento mais acessível e como as negociações de dívida com credores oficiais e privados evoluirão. A capacidade desses países de implementar reformas fiscais sustentáveis e de atrair investimento privado também será determinante.

Além disso, a forma como as economias em desenvolvimento lidarão com a revolução da IA e a exclusão digital associada será um fator chave para seu futuro crescimento. A falta de infraestrutura e acesso à tecnologia pode criar novas barreiras, aprofundando as disparidades globais. A questão da dívida e da inclusão tecnológica se entrelaçam, moldando o caminho para um desenvolvimento mais equitativo e sustentável.

O Grupo das 24 nações sinaliza um alerta importante para a comunidade internacional. A persistência do alto endividamento em economias emergentes e em desenvolvimento não é apenas um problema local, mas um desafio global que requer soluções colaborativas e financeiras eficazes para garantir um futuro de crescimento inclusivo e resiliente para todos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times