O cenário fiscal dos Estados Unidos apresenta uma vulnerabilidade crescente, alertou a agência de ratings Scope Ratings. O recente salto nos rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) expôs a dependência da dívida soberana às flutuações do mercado de títulos. Embora a Scope tenha mantido a nota de crédito dos EUA em AA-, três degraus abaixo da classificação máxima, e reconhecido pontos fortes como uma economia robusta, o dólar como moeda de reserva global e mercados de capitais profundos, a agência aponta para déficits persistentes e uma limitada vontade política para reformas fiscais.
Dívida em Ascensão e Custos de Juros Elevados
A deterioração fiscal é impulsionada significativamente pelos custos de serviço da dívida. Os déficits primários – excluindo pagamentos de juros – devem permanecer estáveis em cerca de 3,5% do PIB. No entanto, com o rendimento do Treasury de 10 anos ultrapassando as projeções de longo prazo do Congressional Budget Office (CBO), estima-se que a dívida possa aumentar em US$ 3,5 trilhões na próxima década se os juros permanecerem 1 ponto percentual acima do previsto. Esse fardo de juros crescente limita a capacidade do governo de responder a choques futuros. Sem um crescimento econômico mais forte ou um ajuste fiscal substancial, a dívida geral do governo pode se aproximar de 160% do PIB até 2036, segundo a Scope.
Estratégia de Gestão da Dívida e Volatilidade do Mercado
Em resposta a essa pressão, os EUA têm rebalanceado sua dívida, migrando de títulos de longo prazo para maturidades mais curtas, uma estratégia iniciada sob a administração Biden e intensificada com recompras de dívida. Essa mudança, no entanto, torna o processo de rolagem da dívida mais custoso em períodos de alta nos rendimentos. Adicionalmente, fundos de hedge, mais sensíveis a preços, tornaram-se atores mais proeminentes no mercado de Treasuries de US$ 32 trilhões, substituindo bancos centrais estrangeiros, que eram detentores mais estáveis. Essa mudança na composição dos detentores de dívida adiciona camadas de volatilidade ao mercado.
O Risco do Teto da Dívida e a Governança Fiscal
O cenário é ainda mais complicado pela questão do teto da dívida dos EUA, que a Scope prevê que será atingido por volta do início de 2027, quando o limite atual de US$ 41,1 trilhões for alcançado. Embora o Tesouro possa usar "medidas extraordinárias" para evitar um default por alguns meses, o Congresso precisará agir. A agência alerta que o cenário político pós-eleições de meio de mandato pode aumentar a probabilidade de impasses partidários prolongados. Episódios recorrentes de disputa sobre o teto da dívida continuam a expor fragilidades na governança fiscal e a contribuir para a volatilidade periódica do mercado.
Implicações para o Cenário Global
O aumento dos custos de juros sobre a dívida americana, combinado com a incerteza política em torno do teto da dívida, representa um risco sistêmico não apenas para a economia dos EUA, mas também para a economia global. A posição de reserva do dólar e a profundidade dos mercados americanos historicamente ofereceram um colchão de segurança, mas a trajetória fiscal atual e a polarização política podem testar esses limites. A capacidade dos EUA de gerenciar sua dívida de forma eficaz é crucial para a estabilidade financeira internacional. A falta de consenso político para ajustes fiscais necessários pode levar a uma maior dependência das condições de financiamento do mercado, tornando os EUA mais suscetíveis a choques externos e a mudanças abruptas no sentimento dos investidores. A forma como os legisladores americanos lidarão com o teto da dívida e a sustentabilidade fiscal nos próximos anos será um indicador chave da resiliência da economia global.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





