Fernando Campos, CEO da DKV Seguros na Espanha, apresentou uma projeção significativa para o mercado de seguros: o ramo de Saúde deverá ultrapassar o de Automóveis em volume de prêmios entre o final deste ano e o próximo. Essa antecipação sinaliza uma mudança de prioridades e investimentos no setor, impulsionada por fatores demográficos e pela crescente conscientização sobre a importância da saúde.
Campos defende veementemente a colaboração público-privada como um pilar fundamental para a sustentabilidade e a capacidade do sistema sanitário espanhol. "A colaboração público-privada não substitui o sistema público, que em Espanha é fantástico, mas sim contribui para reforçar a sua capacidade e torná-lo mais sustentável", afirmou. Ele ressaltou o papel crucial da sanidade privada, não apenas na atenção médica direta, mas também em serviços sociossanitários. Dados apresentados indicam que quase três em cada dez espanhóis possuem seguro de saúde, e o setor privado responde por uma parcela considerável de intervenções cirúrgicas (41,6%) e atendimentos de urgência (33,6%), além de concentrar a maioria das vagas residenciais e hospitais especializados em saúde mental.
O impacto do envelhecimento demográfico
O envelhecimento da população é um dos principais motores dessa projeção e um desafio central para os sistemas de saúde. Campos alertou que a Espanha, já detentora de uma das maiores esperanças de vida do mundo, verá a população com mais de 65 anos saltar de cerca de 20% para 30% até 2050. Essa transição demográfica exige uma profunda reestruturação do modelo de cuidados, migrando de um foco predominantemente curativo para um modelo integral que abranja prevenção, promoção da autonomia e hábitos de vida saudáveis. O objetivo, segundo Campos, não é apenas prolongar a vida, mas garantir que esses anos adicionais sejam vividos com saúde e qualidade.
O CEO da DKV também destacou a alta prevalência de doenças crônicas entre idosos, com cerca de 40-44% dos maiores de 65 anos sofrendo de duas ou mais condições crônicas. Essas patologias representam uma fatia significativa dos gastos em saúde, demandando soluções inovadoras e preventivas. Nesse contexto, as seguradoras são chamadas a ir além de seu papel meramente econômico, assumindo uma postura mais ativa na promoção da saúde e do bem-estar, com iniciativas focadas na prevenção e na adoção de estilos de vida saudáveis.
A revolução da IA na saúde e seguros
Paralelamente ao envelhecimento, a Inteligência Artificial (IA) emerge como um fator transformador no setor. Campos descreveu o investimento em IA generativa na saúde e em seguros como "brutal". A capacidade dos modelos de linguagem de grande escala (LLMs) de fornecer informações médicas levanta novas dinâmicas, com pacientes chegando aos consultórios já com diagnósticos preliminares baseados em suas pesquisas online. O executivo acredita que a IA tem um potencial revolucionário na prevenção, auxiliando na detecção precoce de doenças e sintomas. A adoção da IA para diagnóstico por imagem e detecção precoce já é uma realidade em 74% dos países da União Europeia, com 94% dos hospitais europeus já utilizando ou planejando incorporar essa tecnologia.
Implicações para o mercado e stakeholders
A projeção da DKV e a defesa de parcerias público-privadas têm implicações diretas para seguradoras, prestadores de serviços de saúde e reguladores. Para as seguradoras, representa uma oportunidade de expandir sua atuação no ramo de saúde, desenvolvendo produtos e serviços mais alinhados às necessidades de uma população envelhecida e mais consciente da importância da prevenção. A colaboração com o setor público pode otimizar a alocação de recursos e ampliar o acesso a cuidados de qualidade. Para os pacientes, a tendência sugere um futuro com maior foco em bem-estar e prevenção, possivelmente com acesso facilitado a tecnologias de diagnóstico e monitoramento, embora a questão da equidade no acesso a esses avanços deva ser cuidadosamente considerada pelos formuladores de políticas.
Perguntas em aberto e perspectivas futuras
Embora a projeção da DKV aponte para um futuro promissor no ramo de saúde, restam questões importantes a serem respondidas. A capacidade do sistema público de absorver e integrar efetivamente as contribuições do setor privado, garantindo a coordenação e a qualidade dos cuidados, é um ponto crucial. Além disso, a regulamentação da IA na saúde precisará evoluir para garantir a segurança, a privacidade dos dados e a ética no uso dessas tecnologias. A forma como o mercado de seguros se adaptará para cobrir os custos crescentes associados às doenças crônicas e ao envelhecimento também será um fator determinante para a sustentabilidade do setor.
A dinâmica entre saúde pública e privada, agora com um novo protagonismo do ramo de saúde nos seguros, sugere um caminho de maior integração e especialização. A capacidade de inovar e adaptar-se às mudanças demográficas e tecnológicas definirá os vencedores e os perdedores neste cenário em evolução. A colaboração e a busca por modelos mais sustentáveis e focados na prevenção parecem ser as chaves para enfrentar os desafios vindouros.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





