A ciência tem buscado incessantemente os segredos da longevidade extrema, e um réptil de 194 anos, chamado Jonathan, está oferecendo pistas valiosas. Considerado o animal terrestre mais longevo do mundo, Jonathan, uma tartaruga gigante, teve seu genoma e metiloma sequenciados por uma equipe internacional. O objetivo era entender por que seu envelhecimento celular é significativamente mais lento do que o de outras espécies, inclusive de outras tartarugas gigantes mais jovens.

O Arsenal Genético de Jonathan

O estudo, que utilizou uma amostra de mucosa bucal de Jonathan, identificou um conjunto notável de 287 genes com variantes exclusivas do animal. Muitas dessas variantes estão intimamente associadas à supressão de tumores e a mecanismos de reparo do DNA, processos fundamentais para manter a integridade celular ao longo do tempo. Além disso, Jonathan possui cópias extras de um gene responsável pela produção de uma proteína que atua na eliminação de células senescentes. Essas células, conhecidas como "células zumbi", acumulam-se com a idade e contribuem para o envelhecimento e o desenvolvimento de certas doenças, incluindo o câncer.

Eficiência Mitocondrial e Epigenética

Embora a genética de Jonathan seja impressionante, a forma como esses genes se expressam, ou seja, a epigenética, também desempenha um papel crucial. A análise do metiloma de Jonathan indicou que, em geral, seu epigenoma exibia sinais de desgaste compatíveis com sua idade avançada. Contudo, um achado notável foi a preservação intacta dos interruptores genéticos associados às suas mitocôndrias, as usinas de energia das células. As regiões de baixa entropia em seu DNA estão enriquecidas em promotores de genes ligados à cadeia de transporte de elétrons mitocondrial e ao metabolismo do RNA. Os pesquisadores propõem que essa eficiência mitocondrial incomum pode ser um pilar de sua longevidade, garantindo que as funções vitais celulares permaneçam robustas por mais tempo.

Precedentes e Implicações para a Ciência Humana

O caso de Jonathan não é o único a revelar mecanismos de longevidade em répteis. Em 2019, o genoma de outra tartaruga, Solitário George, também foi sequenciado, apresentando variantes em genes de reparo de DNA e inflamação, o que corrobora as descobertas sobre Jonathan. A relação entre a biologia das tartarugas e a compreensão do envelhecimento humano é um campo em expansão. Estudos anteriores em humanos centenários, como o de Maria Branyas, que viveu 117 anos, também apontaram para epigenomas mais jovens que o esperado, baixa inflamação e microbiomas saudáveis. Essas observações sugerem que, embora os mecanismos exatos possam diferir, a ciência está progressivamente montando o quebra-cabeça do envelhecimento, com as tartarugas oferecendo um modelo biológico único para investigação.

A longevidade de Jonathan oferece um vislumbre fascinante das complexas interações genéticas e epigenéticas que governam o envelhecimento. A pesquisa contínua sobre seu genoma e metiloma promete desvendar mais sobre como retardar os processos degenerativos e, potencialmente, abrir caminhos para intervenções que promovam uma vida mais longa e saudável para outras espécies, incluindo a humana. As descobertas reforçam a ideia de que a natureza detém respostas surpreendentes para alguns dos maiores mistérios da biologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka