Em um vídeo recente, a youtuber Belle of the Ranch abordou uma questão que revela um sintoma preocupante da política contemporânea nos Estados Unidos: a dúvida sobre a viabilidade de políticas ambiciosas, como o 'medicare for all', sob o pretexto de que tais avanços poderiam ser usados para restringir direitos de grupos minoritários, como o acesso à saúde trans. Belle, defensora de um sistema de saúde universal, corretamente apontou que o governo já demonstra intenções nesse sentido, e que a pergunta em si era um argumento contra a luta por melhorias estruturais em detrimento de uma parcela marginalizada da população. A questão, no entanto, toca em um problema mais profundo: a crescente descrença na possibilidade de grandes mudanças impulsionadas pela ação coletiva. Parece que muitos americanos, independentemente de sua orientação política, sucumbiram a um certo cinismo, vendo a complexidade das mudanças necessárias e a polarização política como barreiras intransponíveis. Passamos de um "AmeriCAN" para um "AmeriCANT", onde o "podemos" deu lugar ao "não podemos".
Essa transição de um otimismo histórico para um pessimismo generalizado não é um fenômeno recente, mas sim o resultado de décadas de transformações sociais, políticas e econômicas. Um dos pilares dessa mudança foi a demonização de movimentos ativistas do pós-guerra, cujos sucessos, embora reais, foram frequentemente minimizados ou retratados como fracassos. Paralelamente, uma nova onda de corrupção política, alimentada por interesses corporativos e pela consolidação da economia neoliberal, corroeu a confiança nas instituições. Figuras como Jack Welch, da General Electric, e as políticas promovidas durante a era Reagan, fomentaram uma visão de mundo mais individualista e cínica, que ressoou profundamente com a Geração X, a geração da autora. O resultado é um cenário onde o status quo, mesmo quando claramente disfuncional – como no caso da crise climática –, é visto como a única alternativa viável, em vez de um ponto de partida para a construção de um futuro melhor.
O Legado do Otimismo e a Ruptura do Consenso Liberal
Para compreender o presente "AmeriCANT", é instrutivo revisitar o período conhecido como o "consenso liberal" das décadas de 1950 e 1960. Apesar das tensões da Guerra Fria e do temor nuclear, havia um sentimento palpável de otimismo, em parte impulsionado pela abundância material da época – ainda que distribuída de forma desigual. Essa prosperidade permitia uma sensação de possibilidade, tanto para indivíduos quanto para a nação. O "desafio" soviético, paradoxalmente, abriu espaço para a audácia e a crença na capacidade de empreender programas de larga escala. Havia a convicção de que o país poderia investir maciçamente em projetos que beneficiassem a todos, com os cidadãos comuns como peças-chave desse engrenagem. Programas como a corrida espacial e o sistema de rodovias interestaduais, financiados por impostos, não apenas impulsionaram a economia e geraram empregos, mas também fortaleceram o tecido social. O sistema de bem-estar social expandiu-se, e o investimento em educação, ciência e humanidades tornou as universidades um importante vetor de mobilidade social. Jovens abraçaram a ideia de que a mudança social e política para melhor era não apenas possível, mas também um objetivo digno de luta, inspirados por movimentos como o dos direitos civis, o anti-guerra e os movimentos feministas. A crença era que os sistemas existentes podiam e deveriam ser aprimorados.
A virada para o cinismo se acentuou nas décadas de 1970 e 1980, um período marcado por uma reorientação política e ideológica. A política racial, exacerbada pelo anticomunismo, tornou-se um ponto de convergência para aqueles que resistiam ao progresso. A integração racial, em vez de ser vista como um passo necessário para a igualdade, foi percebida por uma parcela significativa da população branca, especialmente no sul, como um sacrifício de sua posição social privilegiada, alimentando a "resistência maciça" e a reorganização política em torno de estratégias como a "estratégia sulista" de Nixon. O Partido Democrata, outrora com uma ala conservadora racista influente, passou a buscar uma posição mais inclusiva, enquanto os Republicanos capitalizavam o eleitorado desiludido. A retórica anti-governo, ironicamente, coexistia com um desejo de usar o poder estatal para impor visões particulares, especialmente no que tange a questões morais e sociais. A ascensão de líderes religiosos conservadores, como a "Moral Majority", instrumentalizou a fé para promover uma agenda focada na "família tradicional" e em valores conservadores, muitas vezes em oposição aos movimentos por direitos civis, feministas e LGBTQIA+. Essa "guerra cultural" moldou a percepção pública, posicionando os Republicanos como defensores da moralidade e os Democratas como, em geral, seculares ou até anti-religiosos, uma dicotomia que, segundo a autora, prejudica a capacidade democrata de se conectar com uma parcela significativa do eleitorado.
O Neoliberalismo e a Mitologia do Cowboy Individualista
O segundo grande fenômeno que contribuiu para a era do cinismo foi a revolução neoliberal nas décadas de 1970 e 1980. Houve uma rebelião corporativa contra o poder dos sindicatos e a regulação estatal, com CEOs voltando seu foco para a maximização de lucros para poucos acionistas, impulsionada pelo mercado de ações. Figuras como Milton Friedman e Jack Welch disseminaram ideias que culminaram no que críticos chamam de neoliberalismo. Essa nova ordem econômica e política deu origem à era do capital privado dominando diversos setores e fomentou uma ideologia de individualismo como estratégia para justificar cortes de impostos para as altas rendas e o relaxamento de regulações ambientais e trabalhistas. A mensagem central era que o indivíduo deveria resolver seus próprios problemas, temendo a ajuda do governo. A imagem icônica para reforçar essa ideia foi a do "cowboy" – um símbolo de independência e autossuficiência, que, no entanto, ignora a realidade histórica desse trabalhador assalariado, muitas vezes de origem minoritária e operária, que realizava tarefas para proprietários de terras. A "política do cowboy" de Reagan, alimentada por mitos populares e filmes de faroeste, desconsiderava o papel fundamental do governo na expansão para o oeste americano, incluindo atos de genocídio contra povos indígenas e incentivos econômicos para o assentamento. A cultura popular, consolidada pela mídia, promoveu essa mitologia de um indivíduo solitário e íntegro, que resolve problemas comunitários relutantemente e segue em frente. Essa figura do cowboy, despojada de sua realidade histórica e trabalhista, tornou-se um arquétipo do libertarianismo de direita moderno: a busca por riqueza competitiva e desregulamentada, mascarada como liberdade, em detrimento do bem-estar social, do meio ambiente e da mobilidade econômica para a maioria.
Implicações para a Ação Coletiva e o Futuro
A persistência dessa visão individualista tem implicações profundas para a capacidade de enfrentar desafios sistêmicos. A ideia de que ações individuais – como reciclar ou usar um veículo mais ecológico – podem "salvar o planeta" ignora o fato de que os maiores poluidores são entidades corporativas e governamentais. Da mesma forma, a crença de que combater atos individuais de preconceito resolverá problemas estruturais enfrentados por minorias obscurece o fato de que o preconceito está intrinsecamente ligado às estruturas sociais, políticas e econômicas. Embora ações individuais sejam importantes, elas não substituem a necessidade de organização para solucionar problemas sistêmicos. Muitos americanos, mesmo aqueles que se identificam como liberais ou progressistas, tendem a enquadrar esses problemas de forma individualizada, buscando soluções que "tirem o governo do caminho". No entanto, é preciso reconhecer o Estado como um vetor potencial para a solução de problemas em larga escala. Felizmente, há sinais de que essa visão está ressurgindo. Prefeitos como o de Nova York, Eric Adams, que busca resolver problemas de seus constituintes através da ação governamental, exemplificam essa mudança. Sua agenda é guiada pelas necessidades expressas pela população, vendo o governo não como algo externo, mas como uma expressão do povo. Essa abordagem, contudo, depende intrinsecamente do "poder popular" – a mobilização e organização dos cidadãos para impulsionar e sustentar a ação coletiva.
Perguntas em Aberto e a Necessidade de Reconstruir a Confiança
A questão central que permanece é se os Estados Unidos conseguirão reverter a maré de cinismo e reconstruir a confiança na possibilidade de ação coletiva e no papel do governo como agente de mudança positiva. A demonização de ativistas e a ascensão de uma ideologia neoliberal que exalta o individualismo criaram um terreno fértil para a descrença. A erosão da confiança nas instituições, exacerbada por escândalos de corrupção e pela polarização política, dificulta a articulação de projetos comuns. A pergunta que paira é se a sociedade americana, diante de desafios urgentes como a crise climática e a desigualdade social, conseguirá redescobrir um senso de propósito compartilhado e a crença na capacidade de moldar um futuro melhor através de esforços conjuntos. A próxima eleição, embora não seja uma panaceia, representa uma oportunidade para iniciar esse processo de reconstrução.
A capacidade de imaginar e construir um futuro coletivo, longe da armadilha do "AmeriCANT", depende da redescoberta de um otimismo pragmático, fundamentado na ação e na organização. A jornada para reverter décadas de cinismo é longa, mas essencial para a saúde democrática e o progresso social. Com reportagem de Brazil Valley
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