A trajetória do estádio, da antiguidade clássica aos megaeventos contemporâneos, é mais do que uma crônica de inovações em engenharia. É um reflexo das ambições culturais, capacidades tecnológicas e, cada vez mais, do poder econômico de uma sociedade. Uma análise da publicação de design e arquitetura Dezeen mapeou essa evolução através de 15 estruturas emblemáticas, começando no Coliseu romano e terminando no Lusail Stadium, palco da final da Copa do Mundo de 2022 no Catar.

O que emerge dessa linha do tempo é a transformação de um espaço funcional para congregação em um complexo instrumento de urbanismo, entretenimento e branding nacional. Se os primeiros estádios eram moldados pela topografia, as arenas modernas moldam o horizonte das cidades. A lista inclui o Maracanã, um marco que exemplifica a fase em que os estádios se tornaram projetos de afirmação nacional no cenário global, uma tendência que se intensificaria nas décadas seguintes.

Da função à forma simbólica

Nos seus primórdios, a arquitetura de estádios era uma questão de geometria e gravidade. O Coliseu, erguido em 80 d.C., estabeleceu o paradigma: uma estrutura autônoma, não mais dependente de encostas naturais, com assentos em camadas, múltiplos acessos e uma complexa rede de passagens subterrâneas. Era a engenharia a serviço do espetáculo. Séculos depois, o Yale Bowl, nos Estados Unidos, aperfeiçoaria essa lógica com a criação do primeiro "bowl" completo, um formato que se tornaria onipresente no futebol americano universitário, escavado na terra e revestido de concreto armado.

Com a Revolução Industrial, o aço e o concreto armado permitiram novas ambições. O escocês Archibald Leitch, um projetista de fábricas, é considerado o primeiro arquiteto especializado em estádios, aplicando a lógica industrial para criar arquibancadas de aço mais seguras e robustas na virada do século XX. Na Itália fascista, o engenheiro Pier Luigi Nervi levou o concreto a um novo patamar de elegância com o Stadio Artemio Franchi, em Florença, introduzindo coberturas em balanço e rampas espirais externas que se tornariam elementos recorrentes no design moderno.

A era do espetáculo e do negócio

O pós-guerra inaugurou a era dos megaestádios e da transmissão em massa. A construção do Maracanã para a Copa de 1950 não foi apenas um feito de engenharia, mas um projeto de nação, projetando a imagem do Brasil no palco mundial. Nos Estados Unidos, o Astrodome de Houston, em 1965, representou outro ponto de inflexão: o primeiro estádio totalmente coberto e climatizado. A inovação trouxe uma consequência imprevista, a necessidade de criar a grama artificial, ou AstroTurf, marcando o início do controle total sobre o ambiente de jogo e a experiência do espectador.

A partir dos anos 1970, a funcionalidade começou a ceder espaço à expressividade arquitetônica. O teto de cabos tensionados de Frei Otto para o Olympiastadion de Munique, em 1972, trocou a massa dos domos americanos por uma leveza escultural. Em Toronto, o SkyDome (hoje Rogers Centre) de 1989 introduziu o primeiro teto totalmente retrátil, uma solução definitiva para a imprevisibilidade do clima. Mais recentemente, a ascensão dos "starchitects" transformou estádios em ícones, como o "Ninho de Pássaro" de Herzog & de Meuron para as Olimpíadas de Pequim, uma estrutura puramente simbólica, e o Allianz Arena dos mesmos arquitetos em Munique, com sua fachada de ETFE que se ilumina e se transforma em uma tela de mídia. O Lusail Stadium, de Foster + Partners, sintetiza todas essas tendências: forma icônica, tecnologia de ponta, teto de cabos e uma camada de sustentabilidade com seus níveis superiores desmontáveis.

A jornada do estádio, no entanto, está longe de terminar. Hoje, o desafio é duplo: integrar essas megaestruturas de forma sustentável ao tecido urbano e competir com a crescente qualidade da experiência de assistir aos jogos em casa. O futuro da arena talvez resida menos em sua escala monumental e mais em sua capacidade de se tornar um ativo comunitário flexível e multiuso, relevante muito além dos 90 minutos de jogo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen