O artista sul-coreano Do Ho Suh reconstrói, com uma precisão obsessiva, cada espaço que um dia chamou de lar. Apartamentos, corredores e escadarias de Seul, Nova York e Londres são recriados em tecido de poliéster translúcido, esticado sobre delicadas estruturas de aço. Cada interruptor, maçaneta e radiador é medido e costurado, criando instalações com a escala da arquitetura, mas com a leveza de uma lembrança suspensa no espaço.

À primeira vista autobiográficas, as obras transcendem a experiência pessoal do artista. Ao caminhar por entre as paredes diáfanas, que definem um cômodo sem aprisioná-lo, o visitante começa a reconhecer fragmentos da própria vida. A leitura aqui é que Suh não documenta o passado, mas investiga a natureza do pertencimento em uma era que questiona a própria ideia de permanência, um dos pilares históricos da arquitetura.

Uma arquitetura da memória

Por séculos, a arquitetura foi sinônimo de solidez e longevidade. Edifícios eram feitos para durar mais que seus ocupantes, ancorando história e propriedade na terra. As casas de Suh, no entanto, podem ser dobradas, transportadas e remontadas em qualquer lugar. Elas resistem à monumentalidade, sugerindo que a continuidade pode ser mais relevante que a permanência.

A obra ecoa a teoria do arquiteto Gottfried Semper, que no século XIX argumentou que a origem da arquitetura não está na pedra, mas no têxtil — a primeira superfície tecida para separar um ambiente de outro. Suh retorna a essa origem, transformando a arquitetura de objeto em atmosfera. Suas paredes permeáveis revelam interiores e sobrepõem cômodos, focando nos detalhes que carregam o peso da experiência: os objetos que tocamos todos os dias, como lembra o filósofo Gaston Bachelard ao descrever a casa como o lugar onde a memória se aloja no cotidiano.

O lar em uma era de movimento

Para quem vive entre diferentes países, como Suh, o conceito de lar se fragmenta e se reconstrói em múltiplos lugares simultaneamente. Suas instalações materializam essa condição: apartamentos habitados com anos de diferença se sobrepõem no mesmo espaço expositivo, e corredores conectam lares separados por continentes. O lar deixa de ser um endereço fixo para se tornar algo montado através do movimento e da memória.

Este sentimento ressoa com a experiência contemporânea de muitos profissionais, que constroem vidas entre cidades, apartamentos temporários e relações que atravessam fusos horários. O trabalho de Suh sugere que o lar nunca é completamente deixado para trás. Ele persiste nos caminhos que o corpo ainda recorda, no ritmo de subir uma escada familiar ou no gesto instintivo de procurar um interruptor que não está mais lá.

Ao tornar esses gestos invisíveis em algo visível, a arte de Do Ho Suh propõe uma redefinição. Talvez a arquitetura não se defina apenas pelos edifícios que permanecem de pé, mas também por tudo aquilo que se recusa a ficar para trás, viajando conosco como uma camada invisível de pertencimento.

Source · Designboom