A volatilidade recente do dólar frente a moedas emergentes, incluindo o real, reacendeu o debate sobre a sustentabilidade da supremacia americana no sistema financeiro internacional. Conflitos geopolíticos e ajustes nas taxas de juros globais têm pressionado a divisa, levando investidores a questionar se o status de reserva de valor do dólar estaria em xeque.
Contudo, para Artur Wichmann, Chief Investment Officer da XP Investimentos, a realidade é mais complexa do que uma simples perda de protagonismo. Em entrevista recente, o executivo ponderou que desvalorizações do dólar não implicam, por si, uma substituição sistêmica, dada a ausência de um concorrente com escala e confiança equivalentes.
A falácia da substituição imediata
A tese de Wichmann baseia-se na premissa de que a dominância do dólar não é apenas uma escolha de mercado, mas uma necessidade estrutural do sistema financeiro global. Enquanto o euro e o renminbi chinês são frequentemente citados como alternativas, ambos enfrentam limitações de liquidez, transparência e aceitação universal que os impedem de desafiar a hegemonia americana no curto ou médio prazo.
Na prática, trata-se de uma espécie de "vitória por W.O.": o dólar não precisa ser perfeito para reinar — basta ser a opção menos problemática disponível para bancos centrais e investidores institucionais. A infraestrutura de pagamentos e a profundidade dos títulos do Tesouro americano criam um fosso competitivo que nenhum outro ativo financeiro conseguiu transpor até o momento.
Dinâmicas de poder e o mercado de petróleo
A análise sobre a moeda americana ocorre em um momento de tensão no mercado de commodities, especialmente no setor de petróleo. Episódios de instabilidade geopolítica, inclusive em gargalos estratégicos de logística, costumam reorientar fluxos de capitais para ativos mais líquidos. Como o petróleo é amplamente precificado em dólares, choques de oferta ou risco acabam por reafirmar a importância da divisa americana como moeda de troca dominante.
A posição de Wichmann sugere que os investidores devem separar a volatilidade cambial de curto prazo — influenciada por políticas monetárias locais — da solidez estrutural do dólar. Enquanto o mundo busca diversificação, a ausência de um ativo de reserva que ofereça a mesma segurança jurídica e profundidade de mercado mantém o dólar como a âncora do sistema, apesar de oscilações cíclicas.
Implicações para o investidor brasileiro
Para o mercado brasileiro, essa leitura traz implicações diretas sobre a alocação de ativos e a proteção de portfólio. A percepção de que o dólar manterá seu status de reserva, mesmo com eventuais períodos de fraqueza, reforça a necessidade de exposição cambial como estratégia de hedge, independentemente das oscilações temporárias do real ou de políticas internas.
Competidores globais e reguladores observam com cautela essa dependência, mas a falta de uma coordenação internacional para criar um substituto viável — ou uma cesta de moedas alternativa — mantém o status quo. O investidor local, portanto, deve operar sob a premissa de que a hegemonia americana, embora testada, permanece como o pilar central da estabilidade global.
O horizonte incerto das moedas de reserva
O que permanece em aberto é quanto tempo a confiança no sistema americano resistirá caso as tensões fiscais internas nos Estados Unidos se agravem. A capacidade de Washington de financiar sua dívida pública continua sendo um ponto de atenção para os próximos anos, figurando entre os poucos riscos capazes de forçar uma mudança de paradigma no longo prazo.
Observar a evolução das transações comerciais entre potências emergentes será crucial para identificar possíveis fissuras na dominância do dólar. Embora mudanças estruturais sejam lentas, a fragmentação do comércio global pode, eventualmente, criar nichos onde a moeda americana deixe de ser a escolha primária, alterando a dinâmica atual de reserva.
O debate sobre a desdolarização parece, por ora, mais retórico do que prático. A realidade do mercado financeiro segue ancorada na liquidez americana e, enquanto uma alternativa ao dólar não for testada sob condições de estresse global, a primazia da divisa tende a perdurar como base do equilíbrio econômico mundial.
Com reportagem de Bloomberg Línea
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