O Parque Nacional de Doñana, um santuário ecológico na Espanha, enfrenta um paradoxo alarmante: as mesmas medidas de proteção que visam preservar sua rica biodiversidade podem estar, inadvertidamente, empurrando espécies nativas para a beira da extinção. Um estudo recente revelou que a intensa conservação da área, um dos espaços naturais mais protegidos do país, tem levado a um declínio acentuado de pereiras silvestres (Pyrus bourgaeana), uma espécie emblemática da região.

Em 2006, pesquisadores da Estação Biológica de Doñana catalogaram 75 pereiras silvestres em uma parcela específica do parque. Em 2025, restavam apenas 18, e apenas um novo exemplar havia surgido. Essa drástica redução levanta questões urgentes sobre a eficácia das estratégias de conservação e os efeitos colaterais não intencionais de um manejo ambiental excessivamente restritivo. A situação na área protegida contrasta fortemente com outras populações da mesma espécie fora dos limites estritos do parque, onde a taxa de mortalidade é significativamente menor, sugerindo que as condições dentro de Doñana são, de fato, prejudiciais.

O paradoxo da conservação

A pesquisa aponta para uma combinação de fatores que explicam essa tendência preocupante. Um dos principais vilões é a superpopulação de herbívoros, como cervos e javalis. Esses animais, que deveriam coexistir em equilíbrio com a flora nativa, agora exercem uma pressão insustentável. Enquanto predadores naturais como raposas e texugos ajudam na dispersão de sementes viáveis, os grandes herbívoros tendem a triturar as sementes e a consumir os frutos de forma menos benéfica para a reprodução da espécie. Esse desequilíbrio explica a escassez de novas árvores, mas não a morte das árvores adultas.

A seca e a consequente redução dos níveis de água subterrânea emergem como outro fator crítico. Mesmo em áreas fora do parque, onde a pressão de grandes herbívoros é menor, as pereiras silvestres também estão morrendo. A escassez de água, agravada pelas mudanças climáticas, parece ser um fator determinante para a sobrevivência dessas árvores, especialmente em ecossistemas já fragilizados por outros estressores.

O impacto da moratória de caça e a questão dos herbívoros

A moratória da caça em Parques Nacionais, implementada em 2020, tem sido apontada por alguns como um possível gatilho para o aumento da população de cervos e, consequentemente, para o declínio das pereiras. A ideia é que a proibição da caça teria levado a um crescimento descontrolado desses herbívoros, exacerbando a "dívida de extinção" — a situação em que árvores adultas permanecem, mas sem uma nova geração para substituí-las. No entanto, a relação não é tão direta. O aumento da população de cervos em Doñana é anterior à moratória, e o controle de javalis ainda é realizado.

Independentemente da causa exata, a conclusão é que a gestão de populações de animais selvagens em áreas de conservação é um ato de equilíbrio delicado. A intervenção humana, seja através da proibição da caça ou de outras medidas de proteção, pode ter consequências imprevistas, alterando dinâmicas ecológicas estabelecidas ao longo de séculos.

Implicações para o Brasil e outras áreas de conservação

O caso de Doñana serve como um alerta crucial para o Brasil, um país com uma biodiversidade imensa e uma vasta rede de áreas protegidas. A busca pela conservação a todo custo pode, ironicamente, levar à perda de espécies que se adaptaram a um certo nível de interação humana ou a um equilíbrio dinâmico com outras espécies. A gestão de parques nacionais e outras unidades de conservação no Brasil precisa considerar a complexidade dessas interações, evitando medidas que, sob o pretexto de proteção, criem desequilíbrios ecológicos ainda maiores.

A reflexão sobre Doñana nos força a questionar se estamos preparados para lidar com as consequências de nossas próprias ações de conservação. A recuperação de populações animais, embora positiva em muitos aspectos, pode ameaçar outras espécies que cresceram de forma oportunista em ecossistemas alterados pela pressão humana. É um dilema ético e ecológico: até que ponto estamos dispostos a aceitar os contras das intervenções de conservação em nome de um ideal de natureza intocada?

Perguntas em aberto no futuro de Doñana

A questão central que permanece é como reverter esse quadro sem causar danos adicionais. A recuperação da natureza e a proteção de espécies são objetivos louváveis, mas a forma como essas metas são perseguidas exige uma análise contínua e adaptativa. As medidas de conservação precisam ser flexíveis o suficiente para responder a mudanças ambientais e ecológicas, reconhecendo que o equilíbrio natural é um processo dinâmico, não um estado estático.

O futuro de Doñana dependerá da capacidade de seus gestores em encontrar um novo ponto de equilíbrio, onde a proteção não se traduza em extinção. Isso pode envolver a reintrodução de práticas de manejo mais sutis, a consideração de fatores ambientais como a seca de forma mais proativa e a aceitação de que a natureza, mesmo em áreas protegidas, é um sistema complexo e interconectado.

O paradoxo de Doñana sublinha a necessidade de uma abordagem mais matizada e integrada à conservação ambiental. A busca por um ecossistema verdadeiramente resiliente exige não apenas a proteção contra ameaças externas, mas também a compreensão e a gestão das complexas dinâmicas internas que moldam a vida selvagem e a flora em um cenário de mudanças ambientais globais. A lição é clara: a conservação bem-intencionada, sem a devida análise e adaptação, pode se tornar uma armadilha para a própria natureza que se propõe a proteger. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka