A DraftKings, gigante americana de apostas esportivas, atravessa um período turbulento. Com suas ações em queda de 44% no último ano e enfrentando demissões, a companhia aprovou um contrato de marketing que pode chegar a US$ 30 milhões com a HardScope, uma nova empresa de marketing de propriedade integral de seu cofundador, Matthew Kalish. O acordo foi firmado apenas seis semanas antes de Kalish deixar formalmente o cargo de presidente da empresa que ajudou a criar.

O movimento, revelado em um documento regulatório recente e detalhado em uma reportagem da revista Fortune, acende um alerta sobre a governança corporativa da DraftKings. Em um momento de austeridade e pressão competitiva, a decisão de direcionar um orçamento de marketing substancial para a empresa de um insider levanta questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse e a supervisão do conselho de administração, especialmente considerando a estrutura de poder incomum da companhia.

Uma governança sob suspeita

O contrato permite que a DraftKings invista até US$ 30 milhões ao longo de três anos nos serviços da HardScope, que atuará como intermediária na contratação de influenciadores e podcasters para promover a plataforma de apostas, retendo uma comissão de até 14%. Embora a DraftKings e Kalish afirmem que o acordo foi aprovado por um comitê de auditoria independente e que os termos são mais favoráveis que os de outras agências, o diabo mora nos detalhes da estrutura de poder da empresa.

Os membros desse comitê supostamente independente são escolhidos pelo conselho de administração, do qual Kalish e os outros dois cofundadores fazem parte. Mais crítico ainda é o fato de que o CEO e cofundador, Jason Robins, controla aproximadamente 88% do poder de voto na empresa, apesar de deter apenas cerca de 2% de seu interesse econômico. Um especialista em governança corporativa da Harvard Law School, consultado pela Fortune, classificou o arranjo como uma “grande bandeira vermelha”, pois permite que alguém com exposição econômica mínima controle as decisões da companhia. Na prática, a estrutura parece dar a Robins uma influência desproporcional para aprovar um acordo que beneficia diretamente o novo negócio de seu parceiro de longa data.

Pressão de mercado, aposta de risco

O questionável acordo interno ocorre enquanto a DraftKings enfrenta uma crise externa. A ascensão dos chamados “mercados de previsão” (prediction markets), como Kalshi e Polymarket, tem erodido sua participação de mercado. Esses novos concorrentes se beneficiam de uma peculiaridade regulatória que lhes permite atender a um público a partir dos 18 anos, enquanto as casas de apostas esportivas como a DraftKings são restritas a maiores de 21.

Essa pressão competitiva se reflete nos resultados financeiros. A empresa reportou uma perda trimestral de US$ 67 milhões, revertendo um lucro de quase US$ 158 milhões no ano anterior, e viu sua receita cair mais de 4%. Nesse cenário, a alocação de um contrato de marketing de dezenas de milhões de dólares para a empresa de um ex-executivo fornece munição adicional para os investidores que apostam na queda de suas ações (os “short sellers”), que já acumulam ganhos significativos este ano.

Além do contrato, Kalish recebeu um pacote de saída generoso, incluindo cerca de US$ 18 milhões em ações aceleradas. Enquanto a DraftKings luta para se adaptar a um mercado em transformação, a decisão de recompensar um dos seus fundadores na sua saída com um contrato tão relevante expõe as tensões inerentes a estruturas de governança onde o poder dos fundadores pode se sobrepor aos interesses dos demais acionistas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune