O cenário era uma pista de esqui artificial montada para receber a coleção de outono de 2026 da DSQUARED2, mas o que realmente capturou a atenção não foi o ambiente, e sim o calçado que parecia nascido daquela neve fria e técnica. Quando as modelos caminharam sobre a passarela, a rigidez das botas de esqui foi reinterpretada não como um equipamento de proteção, mas como uma peça de arquitetura vestível. A marca, conhecida pela tensão criativa entre a aspereza das paisagens canadenses e a precisão da alfaiataria italiana, parece ter encontrado na engenharia alpina o seu novo campo de exploração estética mais ambicioso.

A arquitetura da performance alpina

A essência da DSQUARED2 sempre residiu na capacidade de extrair elegância de contextos utilitários. Ao observar as novas botas SHE DO e HE DO2, percebe-se que o vocabulário de fivelas, solados robustos e acolchoamentos de tornozelo não é um mero exercício de estilo ou uma fantasia de inverno. Há uma pesquisa estrutural profunda que separa este lançamento da tendência superficial do 'ski-core' que domina o varejo há algumas temporadas. Os gêmeos Caten não apenas aplicaram referências visuais, eles incorporaram a linguagem da engenharia de montanha em um objeto que, paradoxalmente, renuncia à função original em favor da forma escultural.

O contraste entre forma e função

A bota feminina, batizada de SHE DO, funciona como o eixo central desta proposta. O salto curvo, que desafia qualquer lógica de equipamento esportivo real, é o ponto de ruptura que transforma o calçado em uma peça de design puro. Já a HE DO2 adota uma abordagem distinta, utilizando uma base de couro resistente combinada com um sistema de fivelas que permite ao usuário transitar entre uma silhueta técnica maximalista e um perfil mais contido. É um jogo de camadas que reflete a dualidade da marca, onde a robustez do lug sole serve como âncora para uma estrutura que flerta abertamente com o surrealismo da alta moda.

O valor do objeto de coleção

Com preços que atingem patamares elevados — chegando a ¥900.000 JPY para os modelos de topo —, é evidente que a DSQUARED2 não está mirando o mercado de massa, mas sim o colecionador de moda que enxerga valor na singularidade arquitetônica. Este posicionamento de mercado é um reconhecimento de que, em um mundo saturado por tendências efêmeras, o design que exige pesquisa e execução técnica complexa acaba se tornando um ativo de luxo. A bota deixa de ser um acessório de guarda-roupa para se tornar uma peça de exposição.

Perspectivas de um inverno atípico

O que permanece em aberto é como o mercado de luxo reagirá a essa transição definitiva do equipamento esportivo para a vitrine de arte. Se o 'ski-core' foi, até agora, uma apropriação estética do lazer de inverno, a DSQUARED2 sugere que o futuro pode estar na abstração total desse universo. Enquanto as peças chegam às lojas em Tóquio, resta observar se o público verá nelas o ápice da sofisticação ou apenas um experimento audacioso demais para as ruas. A bota, afinal, permanece como um lembrete de que, na moda, a linha entre a pista de esqui e a passarela é apenas uma questão de perspectiva.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast