O sol da manhã reflete nas janelas da Avenida São Luís, mas a atenção de Eduardo Paziam está voltada para o solo. Com as mãos na terra, ele ajusta uma muda, ignorando o fluxo apressado de pedestres que cruzam o centro de São Paulo. Para quem o observa, ele é apenas o jardineiro urbano; para a vizinhança, é o arquiteto de uma transformação silenciosa. Paziam, que passou três décadas circulando entre os polos globais da moda, encontrou na fragilidade das plantas uma métrica de sucesso muito mais gratificante do que os ciclos de consumo desenfreado que antes ditavam sua rotina.
A transição entre o luxo e a terra
A decisão de romper com a indústria têxtil não foi súbita, mas o resultado de um esgotamento ético diante do impacto ambiental da moda. Nascido em Araçatuba, Paziam viu na pandemia o ponto de inflexão necessário para encerrar uma carreira consolidada. O desejo inicial era modesto: cultivar um ipê-amarelo na varanda de seu apartamento. A frustração de ver as mudas morrerem após serem presenteadas a amigos revelou uma desconexão profunda entre o indivíduo urbano e o ciclo natural da vida, transformando um hobby em um projeto de vida.
O aprendizado como ferramenta de gestão
O fracasso do primeiro jardim na Praça da República serviu como uma aula prática sobre a complexidade do ecossistema urbano. Longe de desistir, Paziam buscou referências em Kew Gardens, em Londres, e na infraestrutura de Singapura. Ele compreendeu que revitalizar o centro exigia mais do que boa vontade; exigia conhecimento técnico em drenagem e o uso estratégico de espécies nativas da Mata Atlântica. O projeto, batizado de Pazipê, tornou-se um exercício de resiliência, onde cada canteiro funciona como um pequeno laboratório de adaptação climática.
A força da iniciativa cívica
A sustentabilidade do projeto depende da adesão da comunidade. Com o apoio do programa Adote uma Praça, da prefeitura, Paziam conseguiu institucionalizar o cuidado com 30 canteiros, mas a manutenção real é mantida por uma rede de comerciantes e moradores. Essa governança distribuída transforma o espaço público em um bem comum, onde a destruição de uma planta é prontamente respondida com o replantio em dobro. A iniciativa demonstra que o engajamento local é o principal motor para a preservação de áreas degradadas.
O futuro das cidades resilientes
O sucesso de Paziam na República levanta questões sobre o papel do indivíduo na gestão das metrópoles. Enquanto o poder público enfrenta gargalos operacionais, a ação direta de cidadãos qualificados preenche lacunas críticas de infraestrutura verde. O que permanece como desafio é a escalabilidade desse modelo: até que ponto a paixão de um jardineiro pode ser replicada em uma escala capaz de mitigar as ilhas de calor de uma metrópole como São Paulo?
O verde que brota no asfalto do centro é, antes de tudo, um convite à contemplação. Paziam não busca apenas embelezar a calçada, mas restaurar o vínculo entre quem habita a cidade e o solo que a sustenta. Enquanto as mudas crescem sob o Viaduto Santa Ifigênia, a pergunta que fica é se São Paulo conseguirá, enfim, aprender a cultivar o que planta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Metro Quadrado





