Projetos de eficiência energética e otimização operacional surgem como a via mais viável e econômica para a descarbonização da indústria pesada no Brasil. Segundo relatório do Acelerador da Transição Industrial (ITA), iniciativa apoiada pela ONU, o foco em instalações existentes, os chamados projetos brownfield, oferece uma alternativa de menor risco e custo frente aos megaprojetos de transição energética que dominam o debate público.
O levantamento, realizado em parceria com a consultoria Systemiq e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), destaca que o Brasil precisará de aportes anuais entre US$ 60 bilhões e US$ 85 bilhões até 2033 para cumprir metas climáticas. Enquanto a atenção se volta para grandes investimentos em hidrogênio verde, a solução imediata reside na modernização de plantas operacionais, com custos situados entre R$ 40 milhões e R$ 1 bilhão.
O atalho da otimização industrial
A descarbonização da indústria pesada, que engloba setores como cimento, aço, alumínio e químicos, enfrenta o desafio de ser classificada como hard to abate. O ITA identifica que o caminho mais curto para reduzir emissões não exige necessariamente tecnologias disruptivas, mas sim a aplicação de melhorias incrementais em processos já consolidados.
Exemplos práticos citados pelo estudo, como as iniciativas da Mizu Cimentos, Apodi Cimentos e Alcoa, ilustram essa dinâmica. Na unidade da Mizu em Aracaju, a adoção de pirólise para gerar energia a partir de biomassa visa substituir combustíveis fósseis, com potencial de redução de emissões em até 32%. Tais projetos de otimização conseguem, simultaneamente, reduzir a pegada de carbono e cortar despesas operacionais da companhia.
Barreiras de capital e o custo da inércia
Embora tecnicamente maduros, esses projetos frequentemente perdem espaço na fila de prioridades das empresas. O gargalo reside na concorrência interna pelo orçamento de capital (capex), onde investimentos em descarbonização competem com projetos de expansão de produção ou entrada em novos mercados, que costumam oferecer retornos mais rápidos e expressivos.
Além disso, a ausência de um prêmio verde no mercado consumidor dificulta a justificativa financeira para tais investimentos. Em um cenário de taxas de juros elevadas, o custo de capital torna-se proibitivo para a dívida tradicional. O estudo aponta que o financiamento precisa de capital concessional subsidiado para viabilizar a conta, permitindo que a taxa de barreira dos projetos seja alcançada de forma sustentável.
Modelos de negócio como alavanca
Para contornar a escassez de capital próprio, o modelo de sustentabilidade-as-a-service aparece como uma solução estratégica. Ao transformar despesas de capital em despesas operacionais, empresas fornecedoras assumem a construção e operação de ativos de eficiência em troca de taxas de serviço. Provedores como Combio, Comerc e Neoenergia já operam sob essa lógica no Brasil.
O relatório sugere que a massificação dessa prática depende de uma mudança de postura das grandes companhias. Ao publicar editais para terceirizar a otimização energética, a indústria pode destravar um mercado latente, utilizando fundos como o BNDES Mais Inovação ou linhas da Finep para reduzir o custo do capital e acelerar a transição.
Perspectivas para a agenda climática
O desafio agora é a escala. Embora existam fundos de baixo custo disponíveis, a subutilização desses recursos aponta para uma falha de articulação entre a necessidade industrial e a oferta financeira. A transição dependerá de como o setor privado absorverá esses modelos de serviço.
O monitoramento dessa agenda nos próximos anos revelará se a indústria brasileira conseguirá priorizar a eficiência em detrimento de projetos de maior visibilidade. O sucesso da descarbonização passará, inevitavelmente, pela capacidade das empresas de integrar a sustentabilidade ao cotidiano operacional.
A transição industrial brasileira encontra-se em uma encruzilhada entre a busca por grandes marcos tecnológicos e a necessidade pragmática de otimização operacional. O caminho mais viável parece desenhado, restando agora a execução financeira e a mudança cultural necessária para que a eficiência deixe de ser um projeto marginal e se torne a base da estratégia competitiva do setor industrial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





