Sentar-se ao ar livre na América é um gesto profundamente associado a Eileen Myles. A imagem é recorrente em sua vasta obra: a poeta que abre todas as portas de casa porque deseja capturar o pulso do mundo lá fora. Em poemas que atravessam décadas, Myles transforma o cenário urbano — seja o degrau de uma escada em Nova York, a calçada de uma esquina ou a escada de incêndio — em um palco para a existência. A recente publicação pela Fonograf, que reúne seus três primeiros livros, The Irony of the Leash, A Fresh Young Voice from the Plains e Sappho’s Boat, acompanhados pelo inédito Bird Watching, oferece uma oportunidade rara de observar a gênese dessa voz que, desde o final dos anos 70, insiste em habitar a fronteira entre o interior e o exterior.
Ler Myles em sua fase inicial é ser impulsionado para dentro das ruas de uma Nova York que já não existe, mas que permanece viva em seus versos. A poeta não apenas observa a cidade; ela a habita com uma porosidade que torna o leitor um cúmplice de sua rotina. O novo volume, centrado na figura da poeta que escreve diante de uma janela aberta, revela uma artista que, embora radicada em seu icônico apartamento na East 3rd Street desde 1977, sempre manteve um olhar atento ao mundo, como um gato doméstico com interesses selvagens. A obra de Myles é um convite a essa dualidade: estar dentro e fora, ser o observador e o observado, em uma constante negociação com a materialidade da vida.
O cenário da formação poética
O apartamento na East 3rd Street tornou-se, ao longo dos anos, parte da iconografia de Myles, um símbolo espacial de sua longevidade na cena cultural do centro de Nova York. No entanto, a leitura dos primeiros textos revela que essa morada não foi o único cenário de sua formação. Grande parte do material contido nos primeiros livros foi escrito em um apartamento na Thompson Street, no Soho, um lugar marcado por uma urgência financeira e pelo desejo de escapar da aridez do cotidiano. É nesse contexto que Myles transita da condição de uma recém-chegada da Nova Inglaterra para a afirmação de uma poeta que, em 1978, já compreendia sua posição no mundo.
Essa transição é um dos aspectos mais fascinantes da reedição. O período entre 1977 e 1982 foi marcado por uma efervescência criativa, com a participação em workshops do Poetry Project e a edição de revistas independentes como dodgems. Se inicialmente a poeta ainda negociava com as expectativas tradicionais, ao chegar em Sappho’s Boat, a reivindicação de uma tradição lésbica torna-se explícita e deliberada. A obra reflete essa mudança de tom: do amor pela justaposição de imagens à segurança de declamações que desafiam o cânone estabelecido, consolidando a figura de uma artista que não teme a própria vulnerabilidade.
A mecânica da atenção e o ofício
O destaque desta coletânea é, sem dúvida, o poema épico Bird Watching, escrito em 1978 e agora publicado integralmente. O texto funciona como um registro de um esforço poético contínuo, onde a poeta mantém um diálogo com o mundo através de pássaros que ela mal consegue ver. O poema é, em essência, uma crônica do fazer artístico, repleta de hesitações, falhas e o deleite na observação de detalhes ínfimos. Myles demonstra uma capacidade ímpar de conectar elementos aparentemente díspares, transformando a rotina de um dia comum em uma meditação filosófica sobre a própria existência.
O mecanismo dessa poética reside na recusa do fechamento. Como a própria Myles sugere, a poesia é uma distração necessária, um exercício de sobrevivência que se sobrepõe à necessidade de um emprego convencional. A tensão entre o trabalho para pagar o aluguel e a vocação para a escrita permeia as linhas, conferindo aos poemas uma honestidade bruta. Não há aqui a romantização do artista; há o registro da conta de dentista, da fila do desemprego e da insistência em continuar escrevendo, mesmo quando a musa parece um cão desobediente que se recusa a atender aos chamados da dona.
Implicações e o legado da bravura
Ao revisitar esses textos, é impossível não ler a obra de forma teleológica, buscando os sinais da poeta que viria a se tornar uma das vozes mais consagradas de sua geração. No entanto, o valor do material reside justamente na sua natureza incipiente. Myles, aos 27 anos, lendo seus poemas em estúdios de televisão de acesso público, já carregava uma certeza quase religiosa sobre seu papel. A semelhança entre a busca pela santidade no catolicismo e a busca pela imortalidade na poesia é um tema que atravessa toda a sua carreira, manifestando-se como uma bravura que beira a imprudência.
Para os leitores contemporâneos, a obra de Myles oferece uma lição sobre a importância de ser corajoso em um mundo que exige facilidade. A poeta não oferece respostas prontas, mas sim um convite para habitar a própria vida com a mesma atenção que ela dedica às suas observações urbanas. Em um ecossistema literário muitas vezes preocupado com a finalização e o polimento, a persistência de Myles em manter o inacabado, o rascunho e a nota marginal como parte integrante do poema é uma subversão necessária que continua a ecoar décadas depois.
O futuro da observação
O que permanece incerto, e talvez seja essa a maior força da obra, é como a nossa própria percepção do tempo mudou ao ler esses poemas. A sensação de simultaneidade — estar em Edimburgo em 2025 lendo algo escrito em 1978 — cria uma porosidade na leitura que é, em si, um ato poético. Onde termina a vida da poeta e começa a nossa própria vivência nas ruas que habitamos?
Observar o pássaro, ou apenas a sombra que ele deixa no asfalto, parece ser a tarefa que Myles nos delega. Enquanto a cidade continua a se transformar, a pergunta sobre o que significa ser uma pessoa significativa — talvez uma santa, ou apenas alguém que soube olhar para o lado no momento certo — permanece em aberto, ecoando como um trinado simples em uma manhã de verão.
O que restará da nossa própria tentativa de capturar o pulso do mundo? Talvez apenas o registro de que, por um breve momento, estivemos sentados na calçada, observando a vida passar e anotando, com a pressa possível, o que acontecia diante de nossos olhos. Com reportagem de Lit Hub
Source · Lit Hub





