A ascensão da inteligência artificial generativa tem democratizado o acesso a ferramentas tecnológicas, permitindo que profissionais de diversas áreas desenvolvam soluções e automatizem tarefas sem a dependência exclusiva dos departamentos de TI. Esse cenário, embora promissor para a produtividade e a inovação, impõe novos desafios de governança, segurança e integração. Em resposta a essa dinâmica, a consultoria Ekantika propôs o TechMesh, um modelo federado que busca redistribuir responsabilidades entre TI e as áreas de negócio.
O modelo TechMesh parte da premissa de que a centralização excessiva das decisões tecnológicas pode transformar a TI em um gargalo para a transformação digital, enquanto a descentralização indiscriminada pode gerar riscos. A abordagem da Ekantika visa encontrar um ponto de equilíbrio, onde a TI atua como uma orquestradora e habilitadora, permitindo que as áreas de negócio inovem com autonomia e responsabilidade. “O negócio pode construir, mas também responde por aquilo que constrói”, explica Álvaro Spínola, diretor executivo da Ekantika, destacando a importância da accountability.
TI como Orquestradora e Habilitadora
A proposta da Ekantika não é transferir a responsabilidade tecnológica de forma irrestrita, mas sim estabelecer uma nova divisão de competências. A TI centralizada manteria o controle sobre infraestrutura, arquitetura, segurança, sistemas críticos e governança de dados. Em contrapartida, as áreas de negócio ganhariam mais autonomia para desenvolver soluções alinhadas às suas necessidades específicas, desde que respeitem os padrões corporativos e demonstrem capacidade técnica para implementar e sustentar essas soluções. Essa federação busca mitigar o fenômeno do "Shadow IT" e "Shadow AI", incentivando que essas iniciativas ocorram dentro de um ambiente controlado e seguro.
A consultoria enfatiza que a tecnologia, incluindo a IA, deve ser um alavancador de processos já estruturados, e não um fim em si mesmo. Nara Littério, sócia da Ekantika, ressalta que a introdução de novas ferramentas tecnológicas deve vir acompanhada de uma reestruturação dos processos de execução. A velocidade e a eficiência proporcionadas pela tecnologia só se traduzem em valor real quando os fluxos de trabalho subjacentes são otimizados. Essa visão prioriza o redesenho de processos antes da adoção tecnológica, garantindo que a inovação agregue valor de forma sustentável.
O Núcleo Orquestrador de Soluções (NOS)
Para gerenciar essa federação tecnológica, o TechMesh prevê a criação de um Núcleo Orquestrador de Soluções (NOS). Este núcleo seria o responsável por coordenar as iniciativas, definir estratégias, portfólios, roadmaps e gerenciar demandas. Além disso, o NOS estabeleceria os padrões, metodologias e a seleção de fornecedores, atuando também na capacitação das equipes e na disseminação de boas práticas. A qualificação das demandas seria um passo crucial, avaliando o patrocinador, o valor e o impacto para o negócio para definir o nível de autonomia concedido às áreas.
Demandas complexas, como a implementação de sistemas corporativos como SAP e Oracle, que exigem alta integração e impactam múltiplos departamentos, permaneceriam sob a coordenação centralizada da TI. Iniciativas de menor escopo e com valor mais localizado poderiam ser delegadas às áreas de negócio, desde que estas demonstrem maturidade e capacidade técnica para tal. O modelo busca, assim, um controle granular, adaptando a abordagem de governança ao tipo e ao impacto da iniciativa tecnológica.
Desafios na Implementação e Governança
A implementação de um modelo federado como o TechMesh apresenta desafios inerentes à mudança cultural e à redefinição de papéis. A transição de um modelo centralizado para um mais distribuído exige forte engajamento da alta liderança e um alinhamento claro entre as expectativas da TI e das áreas de negócio. A definição de métricas de sucesso e a garantia de que a autonomia concedida às áreas não resulte em fragmentação ou duplicação de esforços serão cruciais.
Além disso, a governança da IA generativa, em particular, demanda atenção constante. A facilidade de acesso a ferramentas poderosas pode levar ao uso indevido ou à criação de soluções que não atendem aos requisitos de segurança e conformidade. O TechMesh propõe um framework para mitigar esses riscos, mas sua eficácia dependerá da capacidade do NOS de monitorar e adaptar as diretrizes à evolução rápida da tecnologia e às necessidades do negócio. A gestão do conhecimento e a disseminação de melhores práticas se tornam, portanto, pilares fundamentais.
O Futuro da Gestão Tecnológica
O modelo federado da Ekantika reflete uma tendência crescente na gestão de tecnologia corporativa, impulsionada pela necessidade de agilidade e inovação em um ambiente cada vez mais digital. A capacidade de equilibrar a autonomia das áreas de negócio com a governança centralizada da TI será um diferencial competitivo para as empresas que buscam maximizar o valor da inteligência artificial e outras tecnologias emergentes.
O sucesso do TechMesh dependerá de sua capacidade de se adaptar a diferentes contextos organizacionais e de evoluir junto com o cenário tecnológico. A forma como as empresas conseguirão implementar e sustentar essa abordagem híbrida definirá sua agilidade e resiliência na era da IA.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





