A pergunta que deve pautar as reuniões de conselhos e diretorias neste semestre é direta: como a organização está se preparando para o El Niño 2026/2027? Com mais de 80% de probabilidade de ocorrência confirmada por institutos especializados, o fenômeno, com alertas já emitidos pela NOAA, promete se estender até o início de 2027 com intensidade elevada. Diferente de episódios passados, a ciência atual permite identificar com resolução de até um quilômetro quadrado onde as perdas agrícolas e logísticas ocorrerão.

A leitura aqui é que o risco climático deixou de ser um evento abstrato para se tornar uma variável de planejamento com endereço e prazo definidos. A diferença entre a continuidade operacional e o prejuízo financeiro dependerá do rigor no mapeamento desses riscos e da execução de planos de mitigação robustos. Ignorar essa realidade não é apenas um erro de gestão, mas um risco fiduciário que pode comprometer o balanço das empresas nos próximos trimestres.

O mapa de riscos e a geografia dos impactos

Os impactos esperados para o Brasil estão documentados e validados por órgãos como o CEMADEN e a FAO. No Sul, a previsão indica excesso de chuvas, elevando o risco de inundações e deslizamentos, com foco especial na Serra Gaúcha e na região metropolitana de Porto Alegre. O histórico de anos análogos, como 1982 e 2023, reforça a tendência de aumento consistente na intensidade dos eventos hidrológicos nessas áreas.

Em contraste, o Norte e o Nordeste enfrentam a perspectiva de secas severas a partir de agosto, com ameaças diretas à geração hidrelétrica, à navegabilidade fluvial e à segurança alimentar. Já o Centro-Oeste e o Sudeste devem lidar com ondas de calor prolongadas e umidade reduzida, o que impacta a recuperação de reservatórios e o início da safra. Embora algumas culturas possam ser beneficiadas em janelas específicas, a volatilidade geral exige uma gestão de risco que trate clima e natureza como infraestrutura do negócio.

O fim da proteção pela força maior

Historicamente, eventos climáticos extremos eram classificados como força maior, isentando empresas de responsabilidade contratual devido à imprevisibilidade e inevitabilidade. Contudo, o avanço da tecnologia de modelagem climática está quebrando esse paradigma. Se um evento é previsível e mitigável, o argumento jurídico de que ele era impossível de ser evitado perde sustentação perante tribunais.

Empresas que invocarem a força maior para justificar interrupções logísticas ou quebras de safra sem demonstrar que monitoraram os boletins oficiais e implementaram planos de contingência correm o risco real de verem suas defesas afastadas. Isso impacta diretamente contratos de fornecimento, seguros agrícolas e operações portuárias. A revisão de cláusulas contratuais e coberturas securitárias tornou-se uma urgência jurídica para este semestre.

A precificação pelo mercado financeiro

O mercado de capitais já começou a precificar o risco climático antes mesmo de muitas empresas diretamente expostas. Gestoras como a Moreton Capital Partners estão captando recursos para operar a volatilidade de commodities, tratando a fragilidade das lavouras como uma oportunidade financeira. Relatórios de instituições como a Neuberger Berman sugerem que o mercado ainda subestima os impactos físicos, recomendando alocações estratégicas como proteção contra o fenômeno.

Essa dinâmica revela uma falha de percepção nas lideranças corporativas que ainda tratam o clima como item de compliance ou reputação. Quando o risco climático não é integrado ao planejamento estratégico, a empresa paga dois preços: o prejuízo direto pela materialização do evento e o aumento no custo de capital, já que investidores institucionais exigem prêmios adicionais por exposições não gerenciadas. O clima é, essencialmente, capital de risco.

O desafio da governança climática

O que permanece incerto é a capacidade de resposta das organizações frente à velocidade das mudanças. A integração de variáveis como disponibilidade hídrica e regime de chuvas ao ciclo de planejamento estratégico é um movimento que separa as empresas resilientes daquelas que precisarão remediar danos. O monitoramento contínuo dos dados oficiais será o diferencial para decisões operacionais críticas nos próximos meses.

O cenário exige que a governança de capital natural seja tratada com o mesmo rigor que a gestão de fluxo de caixa. As lideranças que agirem agora terão uma base jurídica e operacional sólida para enfrentar os desafios de 2027, enquanto as que optarem pela inércia enfrentarão o escrutínio de acionistas e o impacto direto em suas margens operacionais.

O El Niño 2026/2027 atua como um teste de estresse para a maturidade das empresas brasileiras em relação à gestão de riscos físicos. A forma como cada diretoria responderá a esse desafio definirá não apenas os resultados do próximo trimestre, mas a sobrevivência de cadeias produtivas inteiras frente a um clima cada vez menos tolerante a improvisos.

Com reportagem de Brazil Valley

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