O fenômeno El Niño, um dos mais intensos registrados desde 1950, representa uma ameaça iminente a mais de 30 milhões de crianças e adolescentes no Brasil. Uma análise recente do Unicef destaca que esses jovens podem ser expostos a múltiplos riscos climáticos simultaneamente, comprometendo o acesso a serviços essenciais. Diante da previsibilidade do evento com meses de antecedência, o órgão defende a adoção de medidas proativas para mitigar os impactos sobre a infância.

Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações, podem se manifestar de forma coordenada em diferentes regiões do país. O Unicef detalha que esses cenários impactam diretamente a saúde, com aumento do risco de desidratação e proliferação de doenças transmitidas por vetores como o Aedes aegypti. A segurança alimentar e a nutrição também ficam em xeque devido a perdas agrícolas, queda na renda familiar e consequente aumento dos preços dos alimentos. A disponibilidade de água potável é outra preocupação, com secas reduzindo o acesso e enchentes contaminando fontes e danificando infraestruturas de saneamento.

Ameaças interconectadas à infância

A educação é um dos setores mais vulneráveis. Fumaça de incêndios, calor extremo, escassez de água, dificuldades de transporte e danos à infraestrutura escolar podem levar à interrupção de aulas e outros serviços pedagógicos. Além disso, a perda de moradia, trabalho ou capacidade produtiva em decorrência de desastres climáticos pode fragilizar ainda mais a capacidade das famílias de proverem as necessidades básicas de seus filhos. O Unicef ressalta que os efeitos são interconectados: a falta de água em uma comunidade pode gerar uma cascata de problemas, assim como o fechamento de uma escola pode significar a interrupção de programas de alimentação e apoio psicossocial.

Lições de desastres recentes

O estudo do Unicef utiliza como exemplo as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, afetando 741 mil estudantes. Paralelamente, a seca histórica na Amazônia impactou outros 436 mil alunos. Somados, esses eventos deixaram mais de 1,17 milhão de alunos com aulas suspensas. Embora esses números não prevejam a ocorrência ou a magnitude de impactos futuros com o El Niño, eles ilustram o potencial devastador de fenômenos extremos sobre os serviços dos quais crianças e adolescentes dependem.

Resposta coordenada e antecipada

Para combater esses riscos, o Unicef propõe a implementação do Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Risco e Desastres, iniciativa do governo federal com o apoio do órgão. Este protocolo visa articular a Defesa Civil, os setores de saúde, assistência social, educação e direitos humanos. Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef no Brasil, enfatiza a importância de traduzir os dados meteorológicos em ações concretas para a proteção infantil. A entidade recomenda o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, a preparação de unidades de saúde, a revisão de planos de emergência escolares e a identificação proativa de famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade.

Perguntas em aberto para o futuro

A capacidade de antecipar e responder efetivamente aos impactos do El Niño sobre a infância brasileira ainda é um desafio. A articulação intersetorial e a alocação de recursos para medidas preventivas serão cruciais. A sociedade civil, incluindo influenciadores e jovens, tem um papel a desempenhar na disseminação de informações e na conscientização sobre a relação entre clima, preparação e proteção infantil. A eficácia das medidas propostas pelo Unicef dependerá da sua rápida e completa adoção.

A preparação para os efeitos do El Niño em mais de 30 milhões de crianças brasileiras exige um esforço coordenado e antecipado. A análise do Unicef serve como um chamado à ação para proteger os mais vulneráveis dos impactos climáticos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital