Enquanto meteorologistas debatem o impacto direto do El Niño sobre o clima local, a verdadeira força do fenômeno se manifesta de forma mais sutil e contundente: na economia. A lógica é simples: um El Niño de categoria “muito forte” no Pacífico afeta as monções na Índia, reduzindo a produção de um dos maiores exportadores de arroz do mundo. O efeito, no entanto, não fica contido na Ásia.
Para países como o Brasil, grandes produtores e consumidores de commodities, a lição é clara. A discussão transcende a previsão do tempo e entra no campo da segurança econômica. Como aponta uma análise do site espanhol Xataka, o impacto mais relevante do El Niño não está na alteração dos padrões de chuva locais, mas na sua capacidade de desestabilizar cadeias de suprimento globais e, por consequência, pressionar a inflação no varejo.
Geopolítica, não meteorologia
A relação entre o clima na Ásia e o preço do arroz na prateleira, no entanto, não é linear. O fator decisivo, muitas vezes, é a geopolítica. Em 2023, por exemplo, o preço do arroz tailandês atingiu o maior valor em 15 anos. A causa primária não foi o El Niño, mas uma decisão do governo indiano de proibir a exportação de arroz branco não-basmati em um ano pré-eleitoral. O movimento político, e não o climático, foi o que de fato disparou os preços globais.
Este episódio ilustra uma dinâmica fundamental da economia moderna: o risco climático é amplificado pelo risco político. A produção de arroz na Espanha, que compete diretamente com o arroz asiático, sentiu o impacto. O mesmo vale para o mercado brasileiro, exposto às flutuações internacionais. A questão central não é apenas se vai chover na Índia, mas qual será a próxima decisão de Nova Delhi.
A cadeia de contágio
O arroz é apenas um exemplo. O El Niño tem um efeito cascata em diversas outras frentes. No Peru, o aquecimento das águas do Pacífico força o encerramento antecipado da temporada de pesca da anchoveta. Este pequeno peixe é um componente essencial na produção de farinha de peixe, um ingrediente-chave para a ração que alimenta suínos e peixes de cativeiro em todo o mundo, inclusive no Brasil. Menos anchoveta significa ração mais cara e, no fim da linha, carne mais cara para o consumidor.
O mesmo padrão se repete em outros mercados, como o de açúcar e óleos vegetais, que também registraram altas recentes. O que esses eventos demonstram não é uma série de crises isoladas, mas uma vulnerabilidade sistêmica. A interconexão que barateou produtos e otimizou a produção por décadas agora se revela uma via de contágio para choques climáticos e geopolíticos.
A discussão, portanto, deixa de ser sobre se o El Niño trará seca ou chuva para uma determinada região. O ponto central é a crescente fragilidade de um sistema de abastecimento globalizado, onde um evento climático a 8.000 quilômetros de distância pode redefinir o custo de um jantar em família.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





