A confirmação pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) sobre a chegada de um novo El Niño intensifica a preocupação de analistas e produtores rurais. Com 63% de probabilidade de o fenômeno atingir níveis extremos ou de um 'super El Niño' até 2027, o mercado de commodities agrícolas prepara-se para uma nova rodada de volatilidade, marcada por secas severas na Ásia e precipitações excessivas na América do Sul.
O El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico oriental, altera padrões climáticos globais por períodos de até um ano. Este cenário de instabilidade ocorre em um momento de fragilidade das cadeias de suprimentos, que ainda tentam se recuperar de choques nos custos de fertilizantes e combustíveis. A interdependência das safras tropicais torna qualquer desvio pluviométrico uma variável crítica para a formação de preços internacionais.
Vulnerabilidade do cacau e o impacto na oferta
O cacau tem sido um dos mercados mais afetados por episódios climáticos recentes. Historicamente, fortes eventos de El Niño prejudicam a produtividade das lavouras na África Ocidental, responsável por metade da oferta global. A experiência do último ciclo, entre 2023 e 2024, demonstrou que o fenômeno não atua apenas através da seca, mas também via chuvas excessivas que proliferam doenças fúngicas nas plantações.
Além do estresse biológico nas árvores, variações extremas de temperatura e ventos secos, como o Harmattan, comprometem a fase de floração. Com o Equador também sofrendo com excesso de umidade, a oferta global permanece sob pressão. A escalada dos preços, que superaram a marca de US$ 12.000 por tonelada métrica em 2024, ilustra como a vulnerabilidade climática pode transformar ingredientes básicos em ativos de custo elevado, superando até mesmo metais industriais.
O desafio para o café e o açúcar
O café robusta enfrenta riscos diretos no Vietnã e na Indonésia, os maiores produtores mundiais. O El Niño tende a reduzir a pluviosidade nessas regiões, atingindo a cultura justamente na fase de desenvolvimento. Para o café arábica brasileiro, o impacto é ambíguo: se no curto prazo o calor evita geadas, a seca no último trimestre pode comprometer o potencial da safra de 2027.
No setor sucroenergético, a dinâmica é distinta. Enquanto o Brasil, líder nas exportações, pode sofrer com chuvas excessivas que prejudicam a qualidade da colheita, a Índia e a Tailândia enfrentam o risco oposto: a redução das monções de verão. A Hedgepoint estima que um El Niño moderado seja suficiente para reduzir a produção indiana em 1 milhão de toneladas, evidenciando como as disparidades geográficas do fenômeno criam vencedores e perdedores no mercado global.
Implicações para o mercado e stakeholders
Para reguladores e investidores, o cenário exige monitoramento constante da produtividade agrícola. O aumento da frequência e intensidade desses eventos climáticos força uma adaptação tecnológica no campo e uma revisão das estratégias de hedge para tradings e indústrias de alimentos. A incerteza sobre o volume de chuvas nas regiões tropicais torna a precificação de contratos futuros um exercício de alta complexidade.
Para o Brasil, o papel de protagonista nas exportações de açúcar e café coloca o país em uma posição central na balança comercial global. A capacidade de mitigar os danos das chuvas excessivas ou do calor extremo será determinante para a manutenção das margens dos produtores brasileiros nos próximos meses.
Perspectivas e incertezas
O comportamento do clima nos próximos meses permanece como a principal incógnita para o setor. Embora modelos meteorológicos ofereçam projeções, a interação entre o El Niño e as mudanças climáticas globais cria um ambiente de incerteza sem precedentes para o planejamento das safras.
Os próximos passos do mercado dependerão da resiliência das culturas frente à escassez de água na Ásia e ao excesso de umidade nas Américas. Acompanhar a evolução das monções indianas e os índices de produtividade no Brasil será essencial para antecipar os movimentos de preços no segundo semestre.
O desenrolar desta temporada climática definirá não apenas o resultado financeiro dos grandes produtores, mas também o custo final dos alimentos para o consumidor global. A transição entre o otimismo e a cautela no agronegócio reflete a fragilidade estrutural que o fenômeno impõe às cadeias produtivas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





