Para a turma de recém-formados de 2023 nos Estados Unidos, a linha de chegada da universidade foi também o ponto de partida de uma velha desigualdade. Antes mesmo de iniciarem suas carreiras, as mulheres já saíam em desvantagem. Segundo um novo estudo da National Association of Colleges and Employers (NACE), o salário inicial médio para elas foi de US$ 59.778, enquanto para seus colegas homens foi de US$ 72.190. Em outras palavras, 83 centavos para cada dólar ganho por eles.
Este abismo salarial inicial é o prefácio de uma história complexa. Pela terceira vez na história americana, as mulheres detêm a maioria dos empregos formais. Diferente das duas vezes anteriores — durante a Grande Recessão e pouco antes da pandemia, quando crises eliminaram postos em setores masculinos —, desta vez a mudança ocorreu sem uma recessão. Trata-se de uma alteração que parece estrutural, impulsionada pelo crescimento de áreas dominadas por mulheres, como saúde e educação, e pelo declínio contínuo da participação masculina na força de trabalho.
A grande inversão
Nos últimos 12 meses, a economia americana adicionou mais de 870.000 postos de trabalho para mulheres, enquanto quase 1,5 milhão de homens deixaram seus empregos. Este fenômeno não é um ponto fora da curva, mas a aceleração de uma tendência de longo prazo. A participação de homens com mais de 20 anos na força de trabalho caiu de 75,8% em 2006 para 69,4%.
As explicações para o recuo masculino variam, mas o resultado é uma reconfiguração permanente de quem ocupa os escritórios e fábricas. O movimento sugere que o mercado de trabalho se adapta a novas realidades demográficas e setoriais. Contudo, ocupar mais assentos não se traduziu, ainda, em poder econômico equivalente.
A penalidade estrutural
Se as mulheres estão trabalhando mais, por que continuam ganhando menos? A resposta está na estrutura do mercado e em fatores sociais profundos. Os setores que mais empregam mulheres, embora essenciais, tendem a remunerar menos. Elas representam dois terços dos trabalhadores em empregos de baixa remuneração. Mesmo em áreas de alta qualificação, a diferença persiste e se amplia com o tempo.
O principal catalisador da disparidade, segundo a pesquisa da economista Claudia Goldin, laureada com o Nobel, é a maternidade. O gap salarial, relativamente pequeno no início da carreira, explode após o nascimento do primeiro filho. A partir daí, a trajetória de ganhos de uma mulher se descola permanentemente da de um homem com a mesma formação e profissão, refletindo uma divisão desigual do cuidado com os filhos que o mercado de trabalho ainda penaliza severamente.
O marco de as mulheres serem maioria no emprego, portanto, vem com um asterisco. Como observou Laura Ullrich, economista do Indeed Hiring Lab, à Fortune: "Você poderia olhar e dizer, 'Viva, as mulheres'. Mas não acho que seja necessariamente uma história positiva para as mulheres em geral". A questão que fica é o que significa liderar em número, mas não em valor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





