A aproximação da eleição presidencial brasileira de 2026 está desencadeando uma forte reprecificação dos riscos no mercado financeiro. A volatilidade observada na Bolsa de Valores, com o Ibovespa operando em queda e o dólar em alta, é apenas a ponta do iceberg. O efeito mais duradouro e significativo para a economia real, segundo analistas, reside no aumento do custo do crédito para as empresas brasileiras nos próximos meses e anos.

O mercado, ao precificar os possíveis resultados eleitorais, não avalia apenas o futuro governante, mas as expectativas sobre a sustentabilidade da dívida pública, a disciplina fiscal, o controle da inflação e o potencial de crescimento do país. A possibilidade de uma reeleição de Lula, por exemplo, altera as probabilidades atribuídas pelos investidores a esses cenários, elevando o prêmio de risco exigido para investir no Brasil. Essa elevação se manifesta em três canais simultâneos: menor valor presente dos lucros futuros das empresas na Bolsa, pressão sobre o real devido à busca por proteção e aumento das taxas de juros dos títulos públicos, o que, por sua vez, eleva a referência para o crédito corporativo.

A queda na Bolsa e a alta nos juros de longo prazo, como o contrato de DI para janeiro de 2031 que atingiu 15,94% ao ano, refletem uma perda de confiança ou, no mínimo, uma reavaliação das condições futuras. O Tesouro Nacional já reage cancelando leilões e recomprando títulos, em uma tentativa de estabilizar o mercado. Contudo, essa intervenção não anula o movimento fundamental: o prêmio de risco exigido para investir no Brasil subiu, e a curva de juros longos anulou o alívio observado em períodos de maior otimismo fiscal.

O impacto direto para as empresas é um encarecimento do financiamento. Quando a taxa de títulos públicos sobe, ela se torna a referência de retorno com menor risco. Para que uma debênture corporativa, por exemplo, se torne atraente, o emissor precisa oferecer um spread maior, garantias adicionais ou uma estrutura mais conservadora. O mesmo ocorre com títulos indexados à inflação; a abertura das NTN-B eleva as taxas de referência para CRIs, CRAs e debêntures incentivadas. Isso significa operações de dívida mais caras, prazos mais curtos e um investidor mais seletivo, com setores dependentes de crédito de longo prazo, como a construção civil, sentindo o impacto de forma mais acentuada.

Para o investidor, a volatilidade cria oportunidades, mas a disciplina é fundamental. É preciso separar o risco macroeconômico, que afeta todos os ativos de forma generalizada, do risco específico de cada operação. Um crédito bem estruturado de uma empresa com fluxo de caixa previsível não se deteriora apenas porque a curva do Tesouro abriu 260 pontos-base. Na verdade, pode ter se tornado uma oportunidade de compra a preços mais atrativos. A diferença reside em comprar risco com desconto ou comprar desconto sem analisar o risco.

Nas próximas semanas e meses, quatro sinais serão cruciais para determinar a trajetória dessa reprecificação: as sinalizações dos principais candidatos sobre a futura regra fiscal e o orçamento de 2027, o comportamento do fluxo de investimento estrangeiro e as próximas decisões do Copom sobre a taxa Selic. Nenhum desses fatores depende intrinsecamente de quem vencerá a eleição, mas sim das ações e propostas que serão apresentadas para gerir a economia e restaurar a confiança.

Para as empresas, o foco deve permanecer na continuidade dos negócios e na estruturação eficiente de suas captações de recursos, ajustando prazos, garantias e indexadores às novas condições de mercado. A eleição definirá o comando do país, mas as decisões econômicas que se seguirão determinarão o custo do financiamento e, consequentemente, o ritmo de investimento produtivo e crescimento nos próximos anos. A disputa que definirá quanto custa financiar o Brasil está apenas começando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil