A imagem de Berlim como um playground de excessos hedonistas e techno pulsante, forjada nos escombros do Muro, ainda persiste no imaginário global. Mas quem vive na capital alemã sabe: a cidade está amadurecendo. O espírito punk ainda ecoa em algumas esquinas, mas Berlim entra numa era mais interessante, onde faíscas de inspiração buscam se converter em projetos e conexões tangíveis.

É nesse cenário que nasce a Ex to X, uma rede criada pela produtora criativa Angelique Houben e pela empreendedora e modelo Stefanie Giesinger. O foco é conectar criativos do universo FLINTA* (mulheres, lésbicas, intersexo, não-binários, trans e agênero) de diversas disciplinas, de DJs a floristas. A proposta é simples, mas profunda: criar o espaço que elas gostariam que existisse quando estavam começando.

Acesso, não apenas talento

“Por muito tempo, pensei que ter talento e trabalhar duro seria o suficiente”, afirmou Giesinger, refletindo sobre seu início na indústria da moda. “Mas, com os anos, percebi que acesso é tão importante quanto talento.” Essa é a filosofia que fundamenta a Ex to X. Acesso a pessoas, conversas, oportunidades e colaborações que podem mudar o curso de uma carreira. A premissa é que o potencial criativo muitas vezes não floresce por falta de visibilidade, não de qualidade.

A iniciativa ataca um problema comum aos grandes centros criativos, incluindo ecossistemas como o de São Paulo ou Rio de Janeiro: o talento é abundante, mas os caminhos para que ele seja descoberto e possa colaborar são, muitas vezes, hierárquicos e pouco transparentes. A Ex to X tenta formalizar uma estrutura de apoio onde a generosidade é mais valorizada que a competição, criando as condições para que as conversas certas aconteçam.

Infraestrutura em vez de evento

O sucesso da Ex to X, segundo suas fundadoras, não será medido pelo número de eventos ou participantes, mas pelo que acontece depois: as “consequências acionáveis”. A ideia é construir uma infraestrutura de longo prazo, não apenas promover noites agradáveis. Se um encontro gera uma nova parceria, um projeto que estava na gaveta ou uma mentoria, a missão foi cumprida.

Para isso, a curadoria é intencional, reunindo pessoas de diferentes áreas e em estágios distintos de suas carreiras — artistas, fundadores, editores, fotógrafos e marcas. O papel das organizadoras não é forçar conexões, mas “criar as condições para que essas conversas aconteçam naturalmente”. É um trabalho de facilitação, onde o objetivo final é que os membros deixem os encontros com novas ideias, mais confiança para pedir ajuda e o suporte necessário para dar o próximo passo.

A iniciativa funciona como um termômetro da maturidade de Berlim, onde a energia criativa busca agora não apenas a expressão, mas a sustentação. A questão que fica é se a fórmula de transformar encontros em infraestrutura pode ser o novo manual para comunidades que desejam ir além da efervescência do momento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Highsnobiety