Durante sua vida, e por boa parte do século que se seguiu, o nome de Émilie Du Châtelet (1706-1749) foi sinônimo de excelência científica e filosófica. Sua obra magna, Institutions de physique (1740), foi amplamente lida e debatida, com trechos incorporados — com ou sem crédito — na célebre Encyclopédie de Diderot e d’Alembert. Como, então, uma mente de tal magnitude foi relegada na história ao papel de “amante de Voltaire” e praticamente esquecida pela filosofia e pela matemática?

Uma nova biografia intelectual, The Enlightenment’s Most Dangerous Woman, de Andrew Janiak, argumenta que seu desaparecimento do cânone não foi um mero acidente ou fruto do sexismo convencional da época. A tese, detalhada em uma resenha do portal Notre Dame Philosophical Reviews, é mais profunda: a própria definição de “filósofo moderno” foi construída de uma forma implicitamente masculina, que paradoxalmente excluiu uma de suas mais independentes praticantes. O apagamento de Du Châtelet não foi passivo; foi uma consequência de sua originalidade.

Uma mente sem mestre

O erro comum ao analisar Du Châtelet é tentar encaixá-la em uma única caixa — ora como newtoniana, ora como leibniziana. Sua parceria intelectual com Voltaire, um fervoroso discípulo de Newton, é bem documentada. Ela o auxiliou nas partes técnicas de sua obra de popularização, Élements de la philosophie de Newton (1738). No entanto, como Janiak aponta, ela jamais aceitou a ideia de que um único pensador ou sistema pudesse conter a verdade absoluta. Sua recusa ao discipulado era um princípio fundamental.

Em sua obra Institutions, o objetivo de Du Châtelet não era simplesmente expor as ideias de outros, mas testar os limites da física e da metafísica. Ela buscava um terreno comum entre visões supostamente opostas, como as de Newton e Leibniz, entendendo que a disputa central não era apenas sobre gravidade ou espaço absoluto, mas sobre “os princípios mais profundos que a ciência deveria usar para entender a natureza”. Sua abordagem era a de uma pensadora livre, que, em suas próprias palavras, acreditava que “cada filósofo viu algo, e nenhum viu tudo”. Era essa independência que a tornava, aos olhos de seus contemporâneos, perigosa.

A construção do apagamento

Du Châtelet não se contentava com o papel de anfitriã de salão, o espaço tradicionalmente aberto à influência intelectual feminina na França. Sua ambição mirava as academias de ciências, suas publicações e seus debates formais — um território masculino. Ela entrou em uma célebre disputa pública com o secretário da Academia de Ciências, Jean-Jacques Dortous de Mairan, sobre a questão da vis viva (“força viva”), demonstrando um domínio técnico que surpreendeu e incomodou o establishment.

O paradoxo, segundo a análise de Janiak, está nos próprios philosophes, os arautos da modernidade. Figuras como Diderot e d’Alembert, ao mesmo tempo que se apropriavam de trechos de sua obra para a Encyclopédie, definiam o “filósofo moderno” como um homem que “pisa em preconceitos, tradição (...) e autoridade”, um pensador que “não reconhece nenhum mestre”. Embora Du Châtelet personificasse essa independência, era inconcebível para a vanguarda iluminista que uma mulher pudesse ser uma filósofa “moderna” nesse sentido pleno. A masculinidade estava, de forma inconsciente, embutida no próprio conceito de modernidade filosófica. Assim, mesmo os pensadores que conheciam e utilizavam seu trabalho a excluíram ativamente das novas genealogias da filosofia que estavam escrevendo.

Revisitar a história de Émilie Du Châtelet é mais do que um ato de justiça histórica. É um exercício para entender como os cânones são construídos e quais vieses silenciosos determinam quem é lembrado como gênio e quem se torna uma nota de rodapé. Sua exclusão revela que o conceito de “modernidade” filosófica nasceu com um ponto cego de gênero, cujos efeitos, como argumenta Janiak, ainda ecoam na forma como a história da filosofia é contada hoje. A redescoberta de sua obra oferece um antídoto necessário: uma filosofia para pensadores livres, que ela praticou séculos antes de ser reconhecida por isso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Notre Dame Philosophical Reviews