O cheiro de couro envelhecido, o ronco inconfundível de um motor V8 e a silhueta de um clássico que marcou época. Para muitos, a posse de um ícone automotivo é um sonho distante, ofuscado por cifras milionárias e a fragilidade de peças originais. É nesse vácuo que floresce o mercado de réplicas, um universo onde a paixão por carros se manifesta de formas inesperadas, desafiando noções de autenticidade e valor. Recentemente, dois exemplares chamaram a atenção, cada um com sua própria história e apelo: o Envemo Super 90, uma recriação brasileira de um Porsche 356, e o Factory Five Roadster, uma interpretação moderna do icônico AC Cobra.
Essas réplicas ocupam um espaço peculiar no ecossistema automotivo. Distantes dos kits de fibra de vidro baratos que proliferaram nas décadas passadas, elas representam um investimento considerável, embora ainda significativamente menor que o de seus antecessores originais. Para o público em geral, podem gerar admiração; para colecionadores mais puristas, um certo desdém; e para entusiastas, a ideia é sedutora, mas o preço ainda impõe barreiras. A questão que paira é: vale a pena investir em uma cópia, por mais bem-feita que seja, quando o original é quase inatingível?
O Legado Brasileiro: Envemo Super 90
A Envemo, sigla para “Engenharia de Veículos e Motores”, surgiu no Brasil com a ambição de replicar a beleza e a engenharia do Porsche 356. O Super 90, lançado em 1979, é uma homenagem ao clássico alemão, construído sobre um chassi encurtado do VW Brasilia, um parente próximo do Beetle. Essa escolha de base não foi aleatória; o Fusca, com sua produção massiva e design modular, sempre foi um doador popular para a criação de réplicas. A Envemo, contudo, elevou o conceito, utilizando moldes de um 356C original para criar uma carroceria de fibra de vidro que, à primeira vista, é convincente.
O exemplar em questão, datado de 1965, ostenta 53.000 milhas, um indicativo de que foi desfrutado e dirigido, algo que raramente acontece com os originais de seis dígitos. Os bancos de encosto alto e o volante estilo Nardi podem não ser fiéis ao modelo de fábrica, mas adicionam um toque de personalidade e conforto, talvez reflexo de customizações feitas na época. A ausência de preocupações com a ferrugem, inerente à carroceria de fibra, é um ponto a favor, permitindo que o proprietário desfrute do carro sem a constante apreensão de danos estruturais. O Envemo Super 90 representa uma porta de entrada acessível para o mundo do design Porsche, sem as armadilhas de possuir um clássico de valor inestimável e extremamente delicado.
A Força Americana: Factory Five Roadster
Do outro lado do Atlântico, o Factory Five Roadster encarna o espírito indomável do AC Cobra. Criado por Carroll Shelby, o Cobra é uma lenda automotiva, um monstro de potência construído sobre a base do AC Ace. Com uma produção limitada a cerca de mil unidades entre 1962 e 1967, ver um Cobra original em circulação é um evento raro. A maioria dos exemplares que cruzam nossos caminhos são, de fato, réplicas, e a Factory Five Racing é uma das mais proeminentes nesse segmento.
Este modelo de 1965, com 7.400 milhas, é impulsionado por um motor Ford Windsor de 347 polegadas cúbicas, capaz de gerar cerca de 435 cavalos, acoplado a uma transmissão manual Tremec de cinco velocidades. O exterior, com sua pintura laranja vibrante, remete à agressividade do original, embora a bandeira americana no capô possa ser vista como um toque redundante, dado o caráter já exuberante do Cobra. O interior, por outro lado, diverge do minimalismo funcional do original. O painel em fibra de carbono (ou com padrão de fibra de carbono) e um volante de design questionável conferem um ar mais moderno, talvez menos elegante, mas inegavelmente funcional. A proposta da Factory Five é clara: oferecer a experiência visceral do Cobra com a confiabilidade e a manutenção de um carro mais contemporâneo.
Autenticidade em Debate
A comparação entre o Envemo Super 90 e o Factory Five Roadster expõe o dilema central do mercado de réplicas. O Envemo busca uma fidelidade quase artesanal ao design original, utilizando a engenharia de um veículo popular para recriar a estética de um ícone. Sua força reside na tentativa de capturar a alma do 356, oferecendo uma experiência de condução próxima, mas com a praticidade de um carro mais moderno e menos valioso. Já o Factory Five abraça a potência e a performance, utilizando a silhueta do Cobra como base para um carro de alta performance, com um coração americano pulsante e um toque de modernidade em seu interior.
Ambos os carros, apesar de suas diferenças, compartilham um objetivo comum: democratizar o acesso a carros que, de outra forma, permaneceriam no reino dos sonhos para a maioria. Eles permitem que entusiastas experimentem a emoção de dirigir um clássico, sem o peso do valor histórico ou a preocupação com a desvalorização. A escolha entre eles, ou qualquer outra réplica, resume-se a uma questão de preferência pessoal: a elegância discreta do design europeu ou a brutalidade performática do muscle car americano. São mais do que meras cópias; são tributos, manifestações de uma paixão que transcende a originalidade e celebra a própria ideia do automóvel como obra de arte e máquina de emoções.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Autopian





