Eric Ries, autor do influente "Lean Startup", está propondo uma redefinição fundamental para o conceito de lucro corporativo. Durante sua participação no Seattle Flow Startup Day, Ries apresentou as teses de seu novo livro, "Incorruptible: Why Good Companies Go Bad and How Great Companies Stay Great", argumentando que a métrica atual de sucesso financeiro muitas vezes mascara um processo de decadência estrutural.
Para o autor, o que o mercado frequentemente rotula como lucro é, na verdade, um sintoma de corrupção institucional. Ries defende que o modelo de governança focado prioritariamente no valor ao acionista, predominante desde a década de 1980, tornou-se insuficiente e prejudicial para a longevidade e o impacto social das organizações contemporâneas.
O conceito de corrupção estrutural
Ries utiliza o termo "corrupção" não em um sentido jurídico, mas para descrever a erosão da identidade de uma marca. Ele aponta casos onde empresas, após abrirem capital ou serem adquiridas por fundos de private equity, perdem sua essência original em prol de ganhos imediatos. O exemplo da venda da Whole Foods para a Amazon, em 2017, é citado como um caso emblemático de falha estrutural, onde a filosofia de "capitalismo consciente" de John Mackey foi sobreposta pelo interesse de investidores ativistas.
A leitura aqui é que a estrutura corporativa dita o comportamento da empresa a longo prazo. Se a arquitetura legal não for desenhada para proteger o propósito, a pressão por resultados financeiros trimestrais invariavelmente forçará o desvio da missão original, transformando produtos e culturas organizacionais em ativos descartáveis.
A falência da primazia do acionista
O debate ganha contornos práticos ao analisar casos recentes como o processo entre Elon Musk e a OpenAI. Ries observa que o depoimento de Satya Nadella, CEO da Microsoft, reafirmando seu dever fiduciário de maximizar o valor ao acionista, ilustra a tensão central do modelo atual. Para o autor, essa visão está colapsando sob seu próprio peso, funcionando como um "coiote" que já correu sobre o abismo, mas ainda não olhou para baixo.
A alternativa proposta por Ries é a "primazia da missão". Ele sugere que as empresas devem adotar estruturas de governança que protejam sua razão de existir contra a influência excessiva de capital puramente especulativo. O autor aponta que a simples adoção do status de empresa de benefício público (Public Benefit Corporation) pode ser insuficiente se não houver mecanismos robustos de controle.
Governança e checks and balances
Ao aconselhar os fundadores da Anthropic, Ries enfatizou que a proteção da missão exige estruturas de poder independentes. A criação do Long Term Benefit Trust, um corpo com poder para nomear e remover diretores, exemplifica a busca por um modelo de "dois níveis" de governança. Segundo o autor, essa configuração de pesos e contrapesos é a mais estável desenvolvida nos últimos 150 anos.
Essa abordagem sugere que o futuro do empreendedorismo de alto impacto dependerá de inovações jurídicas que permitam às empresas testarem suas visões de "florescimento humano" no mercado sem estarem permanentemente reféns de métricas financeiras estreitas. A transição para esse novo paradigma, contudo, enfrenta desafios regulatórios e culturais significativos.
O horizonte da missão corporativa
O que permanece incerto é a viabilidade de escala desse modelo em mercados globais altamente competitivos. Se a "primazia da missão" se consolidar, ela pode forçar uma reavaliação de como fundos de venture capital e investidores institucionais avaliam o sucesso de uma startup antes mesmo de sua saída ou abertura de capital.
Observar como empresas que adotam essas estruturas de governança complexas se comportarão em momentos de crise financeira será essencial. A proposta de Ries não é apenas uma crítica ao sistema, mas um convite para que fundadores desenhem a integridade de suas empresas desde a fundação, tratando a cultura e o propósito como ativos tão tangíveis quanto o balanço financeiro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · GeekWire





