A ativista ambiental Erin Brockovich, conhecida pelo processo histórico contra a PG&E por contaminação de águas subterrâneas, iniciou uma nova frente de atuação voltada ao setor de tecnologia. Através da iniciativa 'Brockovich AI Data Center Reporting', a ativista está compilando queixas de moradores de quase todos os estados americanos sobre projetos de data centers em suas comunidades. Segundo reportagem da Fortune, o projeto já reuniu cerca de 4 mil relatos, evidenciando uma resistência crescente à forma como essas infraestruturas são implementadas.

Brockovich destaca que, embora não seja contrária à tecnologia, a preocupação central dos moradores reside na ausência de diálogo e na opacidade dos processos de licenciamento. A ativista argumenta que a transparência deve preceder a tomada de decisões, exigindo que empresas e governos informem sobre consumo de energia, uso de água e impactos na infraestrutura antes que os projetos sejam aprovados.

O desafio da infraestrutura invisível

O crescimento dos data centers nos EUA é impulsionado pela demanda massiva por processamento de IA e serviços em nuvem. Dados do Lawrence Berkeley National Laboratory indicam que o consumo energético desse setor saltou de 76 terawatt-horas em 2018 para 176 terawatt-horas em 2023, o que representa 4,4% do consumo anual do país. Esse cenário cria uma pressão sem precedentes sobre as redes elétricas locais e o abastecimento de água para resfriamento.

O caso de Holly Ridge, na Louisiana, ilustra a tensão relatada pela ativista. Moradores afirmam não ter recebido informações sobre o projeto Hyperion da Meta, estimado em 27 bilhões de dólares, ocupando uma área de 4 mil acres. A sensação de exclusão do debate público torna-se o combustível para o ativismo de Brockovich, que busca transformar o descontentamento fragmentado em uma base de dados organizada para pressionar por mudanças regulatórias.

Dinâmicas de incentivos e conflitos locais

As empresas de tecnologia frequentemente argumentam que data centers geram empregos e aumentam a arrecadação tributária. Em Loudon County, Virgínia, a receita fiscal gerada por cerca de 200 centros de dados atingiu 875 milhões de dólares em 2024, superando o orçamento operacional do governo local. Contudo, essa contribuição econômica é confrontada pelo custo direto para os residentes.

Um estudo da Carnegie Mellon University sugere que o consumo de energia dos data centers pode elevar as contas de eletricidade dos americanos em 8% até 2030. Quando os benefícios fiscais são capturados pelas empresas, mas os custos operacionais e de infraestrutura são repassados aos cidadãos, o atrito social é inevitável. O episódio em Box Elder County, Utah, onde autoridades aprovaram um projeto de 100 bilhões de dólares apesar da oposição pública, exemplifica a resistência institucional a esse escrutínio.

Implicações para a governança tecnológica

A pressão por transparência coloca reguladores e empresas em uma posição delicada. Se a tendência de oposição se consolidar, os prazos de licenciamento podem ser impactados pela exigência de consultas públicas mais robustas. A leitura aqui é que o setor de infraestrutura digital terá de abandonar as táticas de comunicação restrita se quiser evitar a judicialização de seus projetos.

No Brasil, onde o mercado de data centers também cresce rapidamente para atender a demanda de nuvem e IA, o debate sobre o uso de recursos hídricos e energéticos começa a ganhar tração. A experiência americana serve como um espelho para o ecossistema local, onde a integração harmoniosa com o entorno será um diferencial estratégico para empresas que buscam evitar conflitos de licenciamento ambiental e social.

O futuro da expansão digital

A incerteza sobre o impacto final desses centros de dados no custo de vida das populações locais permanece como o ponto de maior atenção. É possível que a pressão por transparência force uma revisão no modelo de incentivos fiscais oferecidos por municípios em busca de investimentos tecnológicos.

O desenrolar desse projeto de monitoramento de Brockovich indicará se a transparência se tornará um padrão de mercado ou se o conflito entre o desenvolvimento tecnológico e o interesse comunitário se intensificará. Acompanhar a evolução dessas queixas e a resposta das gigantes de tecnologia será essencial para compreender a sustentabilidade social da infraestrutura de IA.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune