O cheiro da terra úmida, a promessa de formas que brotam das mãos habilidosas, o calor que transforma a argila em arte. Em Marratxí, uma localidade que ostenta o título de "terra de barro", a Escola Municipal de Cerâmica Pilar Sastre deveria ser um farol, um santuário para a preservação e inovação de um ofício ancestral. Contudo, a realidade que se impõe neste início de curso é desoladora: o forno, coração pulsante de qualquer ateliê de cerâmica, permanece frio e inoperante.
A crítica parte do grupo MÉS per Marratxí, que vê na situação um reflexo de um descaso com a identidade cultural e o potencial econômico da região. "É incompreensível que uma escola municipal de cerâmica comece o curso sem forno", desabafa Aina Amengual, porta-voz da formação. Para ela, o município não pode se dar ao luxo de "descuidad" uma instituição que deveria ser referência na transmissão de um ofício emblemático, especialmente quando a própria essência de Marratxí está ligada a essa arte.
A situação se agrava com a perda de uma oportunidade de financiamento crucial. A convocatória do Serviço de Ocupação das Baleares (SOIB) para programas de formação e emprego, cujo prazo se encerrou em setembro de 2025, foi deixada passar pelo governo municipal. Essa negligência significa que o certificado profissional de cerâmica, um curso que antes abria portas no mercado de trabalho e garantia o futuro de novos ceramistas, não terá continuidade neste ano. Amengual lamenta que, ao perder essa chance, não se perde apenas uma subvención, mas sim "formação, emprego e futuro para um ofício que forma parte da nossa identidade".
Essa falha na gestão não é um incidente isolado, segundo o MÉS per Marratxí. A formação aponta que, no início da legislatura, o governo local, composto por PP e Vox, já havia deixado de lado as campanhas audiovisuais de Natal que historicamente promoviam a marca "Cerâmica de Marratxí". A cerâmica, argumentam, não pode ser defendida apenas com discursos institucionais ou durante a celebração anual da Fira del Fang (Feira da Argila). É preciso ação contínua, investimento e suporte prático.
A urgência em Marratxí ecoa uma preocupação mais ampla sobre a valorização de ofícios tradicionais em um mundo cada vez mais digitalizado e acelerado. A cerâmica, com sua conexão intrínseca com a terra e o tempo, oferece um contraponto necessário. Ela exige paciência, precisão e uma compreensão profunda dos materiais. Quando uma escola que deveria nutrir essas qualidades opera sem seus equipamentos básicos, o que isso diz sobre nossas prioridades culturais e educacionais? Será que o legado de Marratxí como "terra de barro" corre o risco de se tornar apenas uma lembrança, um nome sem substância, enquanto o forno permanece frio e as oportunidades de formação se dissipam como fumaça?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





