Layla Grace, 21 anos, pintou as unhas da mão direita com as cores da bandeira lésbica e as da esquerda com a bandeira transgênero. No meio do maior acampamento de escoteiros dos Estados Unidos, sua missão era ser “o mais barulhenta possível”. Onde antes havia tendas comunitárias para jovens LGBTQ+, de minorias ou com deficiência, agora só havia sua presença — um ato de resistência individual em meio a milhares de uniformes.
A ausência dos espaços de acolhimento no National Jamboree não foi uma decisão fortuita. Foi o resultado de uma pressão direta do Pentágono sobre o Scouting America. Segundo reportagem da Fortune, o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, ameaçou encerrar a parceria centenária do exército com a organização caso ela não recuasse em suas iniciativas de diversidade, que ele classificou como “woke”.
O paradoxo da inclusão
O movimento expõe uma contradição profunda. Em 2024, a organização abandonou o nome "Boy Scouts of America" para se tornar "Scouting America", um gesto simbólico para abraçar a inclusão e o crescente número de meninas em suas fileiras. Agora, a mesma instituição que buscou se modernizar se vê forçada a uma marcha à ré, monitorada de perto pelo Departamento de Defesa. A situação ecoa um passado não tão distante: James Dale, que processou os escoteiros nos anos 90 após ser expulso por ser gay, foi quem obteve, via ação judicial, o memorando que detalha o acordo de vigilância do Pentágono sobre a organização. A história, ao que parece, se repete como um cabo de guerra.
A resistência na trilha
Para alguns, a decisão foi uma traição. Escoteiros veteranos como John Andrew Segebarth, que se preparava para ser voluntário na tenda LGBTQ+, decidiram boicotar o evento. “Os escoteiros estão recuando em valores que me disseram acreditar”, afirmou. Para ele, a promessa de um ambiente seguro foi quebrada. Já para Layla Grace, a ausência se tornou um chamado. Em vez de se afastar, ela decidiu ir ao acampamento para ser um farol visível de apoio, preenchendo o vácuo deixado pela estrutura oficial.
O Jamboree, um evento de dez dias nas montanhas da Virgínia Ocidental, foi concebido como um espaço de aprendizado e aventura. Hoje, transformou-se em um microcosmo da guerra cultural americana, onde a definição de “segurança” e “pertencimento” está em disputa, não ao redor de uma fogueira, mas nos corredores do poder em Washington.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





