O governador do Banco de Espanha, José Luis Escrivá, identificou a fragmentação do mercado financeiro europeu como o principal obstáculo para dinamizar o crédito e impulsionar o financiamento na União Europeia. Em sua visão, a existência de fronteiras nacionais que limitam a prestação de serviços bancários em escala comunitária é o ponto mais crítico a ser resolvido. Escrivá defende uma simplificação regulatória e a criação de um marco normativo europeu comum, em contraponto à situação dos Estados Unidos, onde entidades de porte similar operam sob um mesmo conjunto de regras.
A Fragmentação como Freio ao Crédito
Durante a Conferência Internacional de Banca 2026, organizada pelo Santander, Escrivá enfatizou que, em um sistema financeiro tão bancarizado quanto o europeu, a competitividade deve residir na eficiência das entidades e não na comparação com outras jurisdições. A meta, segundo ele, é preparar o sistema bancário para apoiar o crescimento e o investimento necessários à economia europeia. O governador saudou o mandato das instituições comunitárias para reformas estruturais até 2027, mas alertou para o risco de que as jurisdições nacionais deixem de lado reformas internas por esperarem um marco europeu. Ele citou a Escandinávia como exemplo de sucesso na criação de um ambiente favorável para scale-ups e empresas inovadoras, mesmo dentro do quadro regulatório existente, sugerindo que tal modelo pode ser extrapolado.
A Europa Ausente na Primeira Onda de IA
Escrivá também abordou a ausência da Europa na primeira onda de inovação em inteligência artificial (IA). Ele atribuiu essa defasagem à dificuldade europeia em combinar inovação rápida, baseada em descobertas de alto nível, com a transformação de modelos e instrumentos. Apesar de reconhecer a excelência dos pesquisadores europeus, muitos dos quais migraram para outros centros de pesquisa, o governador lamentou a falta de premiação ao sucesso no continente. Para ele, é crucial fomentar a inovação contínua e transformá-la rapidamente em algo produtivo, exigindo maior agilidade e apoio a inovadores, antes mesmo da chegada do capital.
O Papel dos Bancos e a Regulação
O papel dos bancos na economia europeia foi destacado por Escrivá como relevante para financiar os investimentos futuros. Ele defendeu que, excetuando modelos de alto risco ligados a direitos humanos, a autorregulação bancária é fundamental para avaliar os prós e contras do uso intensivo de modelos de IA em busca de ganhos de eficiência. No âmbito dos pagamentos, Escrivá alinhou-se à postura europeia de que as autoridades monetárias devem ter um papel ativo, em contraste com a abordagem americana de deixar inovações como dinheiro digital e tokenização nas mãos do setor privado. Ele vê potencial na tecnologia de registro distribuído e contratos inteligentes para aumentar a eficiência e reduzir custos, mas ressalta a importância da confiança no dinheiro, um pilar sustentado pelo Banco Central Europeu.
Desafios no Mundo dos Pagamentos e o BCE
Escrivá considerou "muito problemático" um sistema de pagamentos totalmente dominado por stablecoins privadas, especialmente do ponto de vista da capacidade do banco central de fornecer liquidez ao mercado. Ele lembrou que, em momentos de tensão, os bancos centrais têm a responsabilidade de injetar liquidez para garantir a estabilidade financeira, algo inviável em um cenário dominado por criptomoedas. A posição europeia, que combina inovação com a garantia de confiança no dinheiro, é vista como a abordagem correta para navegar o futuro dos pagamentos e o avanço tecnológico, garantindo que o sistema financeiro permaneça robusto e capaz de suportar a economia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





