A consultoria Transforma Insights projeta que, até 2035, aproximadamente 53% dos novos dispositivos de Internet das Coisas (IoT) com conectividade celular — cerca de 597 milhões de um total de 1,13 bilhão — adotarão o padrão SGP.32. Este novo padrão, desenvolvido pela GSMA, visa revolucionar a gestão de conectividade em dispositivos IoT ao permitir a administração remota de perfis digitais que autenticam o acesso à rede de operadoras. A principal inovação reside na capacidade de instalar, ativar ou substituir esses perfis à distância, eliminando a necessidade de intervenção física ou troca de chip. Diferentemente de padrões anteriores, como o SGP.22 (para celulares, que exige interação humana) e o SGP.02 (para comunicação máquina a máquina, com integrações complexas), o SGP.32 foi concebido para simplificar a estrutura e atender a equipamentos que operam sem interfaces visuais ou usuários diretos, como medidores inteligentes, sensores remotos e rastreadores em larga escala.

Aceleração da Conectividade M2M

A adoção do SGP.32 surge em um contexto de crescimento robusto das conexões M2M (Machine-to-Machine) no Brasil. Dados da Anatel indicam que, em julho de 2026, o país já contava com 58,83 milhões de acessos para comunicação M2M e terminais de pagamento. Somente naquele mês, foram adicionadas 859 mil conexões, superando 60% do crescimento total do mercado móvel brasileiro no período. Essas conexões são a espinha dorsal de serviços essenciais, como medição de consumo de água, energia e gás, processamento de pagamentos, rastreamento de frotas, segurança eletrônica, automação industrial e gestão de infraestrutura urbana. A capacidade de gerenciar a conectividade de forma remota e flexível, proporcionada pelo SGP.32, alinha-se perfeitamente às necessidades de escalabilidade e eficiência exigidas por essas aplicações.

Novos Modelos de Serviço e Gestão

Evandro Gonçalves, sócio fundador e CEO da Datatem, empresa brasileira especializada em conectividade IoT, destaca que o SGP.32 marca uma transição de um modelo de conectividade definida na fabricação para um gerenciamento contínuo ao longo da vida útil do equipamento. Essa mudança permite que fabricantes definam a conectividade mais perto da ativação e que empresas ajustem perfis remotamente conforme os projetos evoluem. Para um país com as dimensões territoriais do Brasil, essa flexibilidade é particularmente vantajosa. Além disso, a integração de APIs possibilita que fabricantes ofereçam serviços recorrentes de conectividade, monitoramento e manutenção, transformando a venda de hardware em um fluxo de receita contínuo. A contratação da conectividade também tende a se tornar mais granular, com modelos flexíveis que podem incluir cobrança por operação ou serviços recorrentes, adaptando-se aos diferentes ciclos de uso de dispositivos como medidores ou rastreadores.

Parceria Estratégica para o Mercado Brasileiro

Em resposta a essa nova dinâmica, a Datatem estabeleceu uma parceria com a Thales para introduzir no mercado brasileiro uma solução completa de eSIM e eIM (eSIM IoT Remote Manager) baseada no SGP.32. A solução integra eSIMs da Thales, perfis de conectividade e a plataforma de gerenciamento da Datatem, permitindo o acompanhamento de dispositivos, administração de perfis e integração com sistemas internos via API. A tecnologia estará disponível em formatos MFF2 (soldado à placa) e removível (halfcard), facilitando a incorporação tanto em novos produtos quanto em equipamentos já em operação. A Thales já obteve a certificação eSA (eSIM Security Accreditation) da GSMA para sua solução SGP.32, garantindo a segurança do hardware, firmware e sistema operacional. Essa iniciativa promete impulsionar a adoção do padrão no Brasil, alinhando o país às tendências globais de IoT e conectividade inteligente.

Perguntas em Aberto

Apesar do otimismo em torno do SGP.32, algumas questões permanecem em aberto. A velocidade de adoção em diferentes setores da indústria brasileira, além do M2M tradicional, ainda é uma incógnita. A capacidade das operadoras e integradoras de desenvolverem os modelos comerciais flexíveis previstos para o novo padrão também será crucial. Além disso, a interoperabilidade completa entre diferentes fabricantes de hardware e plataformas de gerenciamento, embora facilitada pelo SGP.32, exigirá esforços contínuos de padronização e colaboração.

A expansão do SGP.32 aponta para um futuro onde a conectividade de dispositivos IoT será mais dinâmica e adaptável, abrindo novas possibilidades para a automação e a gestão inteligente de recursos em larga escala. A jornada para a adoção total, no entanto, dependerá da superação de desafios técnicos e comerciais, e da capacidade do mercado em inovar com base nas novas funcionalidades.

Com reportagem de Brazil Valley

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