A expansão dos centros de dados na Espanha, essenciais para a infraestrutura digital e a inteligência artificial, enfrenta um desafio energético monumental. O governo espanhol tem buscado equilibrar esse crescimento com a sustentabilidade, propondo que a nova capacidade de data centers seja acompanhada pela instalação de novas fontes de energia renovável. No entanto, um recente relatório da consultoria EY lança luz sobre a complexidade dessa exigência, indicando que a demanda contínua e a intermitência das renováveis podem tornar a meta proibitivamente cara e complexa.

O cerne da questão reside nas exigências estabelecidas pelo projeto de real decreto que regula a atividade dos data centers. O texto propõe que, no mínimo, 80% do fornecimento elétrico desses centros venha de energia solar ou eólica adicional, e que 80% do consumo seja coberto hora a hora por essas fontes. Essa dupla condição – adicionalidade e correlação horária – visa evitar que o aumento da demanda por data centers sobrecarregue o sistema elétrico, forçando o uso de energia fóssil.

O Desafio da Intermitência Renovável

As energias solar e eólica, embora cruciais para a descarbonização, são inerentemente intermitentes. A produção de eletricidade varia drasticamente dependendo das condições climáticas e do horário do dia. Um dia ensolarado de verão, com alta irradiação solar, gera uma quantidade substancial de energia, mas o mesmo não ocorre em uma noite sem vento. Centros de dados, por outro lado, operam 24 horas por dia, sete dias por semana, exigindo um fornecimento de energia constante e confiável. Para suprir as lacunas de geração renovável, o projeto de decreto prevê o uso de uma combinação de geração adicional e armazenamento em baterias.

Sobredimensionamento Massivo da Infraestrutura

O estudo da EY simula o impacto dessas exigências para atender 3,5 GW de demanda de data centers até 2030. Os resultados são surpreendentes: para garantir a cobertura horária e a adicionalidade renovável, seria necessária uma capacidade instalada de quase 50 GW, dividida entre 26,8 GW de solar fotovoltaica, 8,8 GW de eólica e 14,2 GW de armazenamento em baterias. Essa cifra representa um fator de multiplicação de aproximadamente 14 vezes a capacidade de demanda dos data centers. Em outras palavras, por cada GW de demanda, seria preciso instalar cerca de 14,2 GW de geração e armazenamento renovável para cumprir as normas propostas.

Implicações Econômicas e de Mercado

Esse sobredimensionamento não vem sem consequências. O relatório da EY alerta para a geração de cerca de 19.742 GWh de excedentes anuais, o que poderia aumentar em pelo menos 16% os "vertidos" do sistema – energia gerada, mas não consumida. Essa situação pode prejudicar a rentabilidade de instalações renováveis já existentes. Mais alarmante é o impacto nos custos de fornecimento para os data centers. O estudo estima que os custos de suprimento possam atingir 133,07 euros por MWh, mais que o dobro do preço de mercado futuro projetado para 2030 (55 euros/MWh). Essa disparidade pode tornar os serviços digitais providos por esses centros menos competitivos.

Perguntas em Aberto para o Futuro

Diante dessas projeções, o setor de data centers na Espanha se vê em um dilema. Embora o governo tenha suavizado algumas das normas em revisões recentes, a preocupação com a viabilidade econômica e a complexidade regulatória persiste. O debate agora se concentra em encontrar um equilíbrio que permita o crescimento sustentável da infraestrutura digital sem impor encargos excessivos ao sistema elétrico ou aos próprios provedores de serviços. A questão que permanece é se as exigências atuais são realistas ou se um modelo alternativo, talvez com maior flexibilidade ou foco em tecnologias de armazenamento mais avançadas, será necessário para viabilizar o futuro digital da Espanha.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka