A Europa moveu uma peça crucial em seu tabuleiro geoestratégico espacial. A espanhola Hispasat garantiu um contrato de mais de €1,6 bilhão para um papel de liderança no desenvolvimento do IRIS², a constelação de satélites da União Europeia projetada para assegurar a soberania digital do bloco. A iniciativa é a resposta direta do continente a sistemas como o Starlink, da SpaceX.

O movimento, no entanto, é mais do que uma vitória comercial. Ele sinaliza uma aposta calculada da Espanha para se posicionar no centro da infraestrutura crítica europeia, em um momento em que a “resiliência” se tornou a palavra de ordem em Bruxelas, de semicondutores a comunicações por satélite.

A soberania como serviço

O IRIS² é um projeto de arquitetura complexa, com um orçamento previsto de €15,6 bilhões, combinando capital público e privado. A constelação de 348 satélites operará em múltiplas órbitas com um foco claro: fornecer comunicação segura e criptografada para governos, exércitos e serviços de emergência. Segundo reportagem do Xataka, 66 desses satélites serão de uso exclusivamente militar e de segurança.

Diferente do modelo inicial da Starlink, focado no consumidor final, o IRIS² nasce com um DNA estatal e estratégico, buscando evitar a dependência de infraestrutura controlada por empresas ou nações estrangeiras para suas comunicações mais sensíveis.

A aposta dupla de Madri

A vitória da Hispasat é significativa. A empresa não apenas cuidará da infraestrutura de solo, como antenas e sistemas de controle, mas também liderará a camada “Low-LEO”, a mais próxima da Terra, projetada para conectar diretamente celulares e dispositivos de Internet das Coisas (IoT). É um componente tecnologicamente avançado e de alto valor estratégico.

Paralelamente, o governo espanhol anunciou um investimento adicional de até €2 bilhões, via Ministério da Defesa, para criar sua própria constelação nacional sob o guarda-chuva do IRIS². É uma estratégia dupla: influenciar o projeto pan-europeu por dentro e, ao mesmo tempo, garantir uma capacidade soberana própria para fins de defesa.

O contrato coloca a Espanha não como mera fornecedora, mas como uma arquiteta central da autonomia estratégica europeia no espaço. Enquanto a corrida espacial entre EUA e China captura as manchetes, a Europa constrói, de forma mais discreta, suas próprias muralhas digitais. E a Espanha acaba de garantir um lugar na torre de comando.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka