Pedro Sánchez e Emmanuel Macron, líderes de Espanha e França, respectivamente, apresentaram um alinhamento de suas visões sobre a estratégia da União Europeia em relação à China. Em declarações conjuntas, ambos os presidentes buscaram projetar uma frente unida em prol de uma Europa mais autônoma, capaz de reduzir dependências externas sem, contudo, fechar-se comercialmente. A ênfase recai sobre a necessidade de aprofundar a autonomia estratégica em setores cruciais como tecnologia, energia e segurança.

A busca por autonomia estratégica

A aspiração compartilhada por Sánchez e Macron é a de construir uma União Europeia mais resiliente e independente. Para Sánchez, isso se traduz em um impulso para energias renováveis, espelhando a aposta francesa na energia nuclear. A meta é clara: diminuir a dependência de terceiros países, especialmente em áreas de alta relevância econômica e geopolítica. No entanto, essa busca por autonomia não deve significar um isolamento comercial, mas sim uma reconfiguração das relações para um cenário mais equilibrado. A declaração de Sánchez sobre o déficit comercial da UE com a China, estimado em mais de 360 bilhões de euros em 2025, sublinha a urgência de abordar essas disparidades econômicas de forma mais assertiva.

Equilíbrio entre cooperação e competição

Ambos os líderes defendem uma abordagem pragmática nas relações com Pequim, que envolve cooperação onde possível, competição quando necessária e uma gestão construtiva das divergências. Macron, em particular, alertou contra a ingenuidade, mas também contra a estigmatização da China, reconhecendo a importância das relações comerciais e da absorção de inovações tecnológicas chinesas, especialmente aquelas ligadas à transição verde e à indústria. A transferência de tecnologia da China para a Europa, em setores como a indústria automobilística e veículos elétricos, foi destacada por Sánchez como um ponto onde a UE precisa atuar para não perder terreno, buscando acordos que estabeleçam "mínimos comuns" para as interações com grandes potências econômicas.

Vozes divergentes e o futuro da política europeia

Apesar do esforço de Sánchez e Macron em apresentar um discurso coeso, o próprio Macron reconheceu a existência de "vozes divergentes" dentro da União Europeia sobre como lidar com a China. Essa constatação aponta para os desafios inerentes à formulação de uma política externa comum para um bloco de 27 nações, cada uma com seus próprios interesses econômicos e geopolíticos. A busca por um "compromisso estratégico" com a China, que proteja o mercado europeu e, ao mesmo tempo, aproveite as inovações chinesas, é um ato de equilíbrio delicado que exigirá negociações contínuas e concessões mútuas entre os Estados-membros.

Implicações para o bloco e para a China

A convergência, ainda que parcial, entre Espanha e França é um sinal importante para Pequim e para outros atores globais. Sugere um movimento em direção a uma maior assertividade europeia, mas também a uma tentativa de manter canais de diálogo abertos. A forma como a UE conseguirá harmonizar as diferentes perspectivas nacionais — desde a dependência econômica de alguns países até preocupações de segurança de outros — definirá sua capacidade de atuar como um bloco coeso no cenário internacional. A China, por sua vez, observará atentamente se a UE conseguirá traduzir essas aspirações em ações concretas e unificadas.

A busca por uma estratégia europeia comum em relação à China é um processo complexo, marcado por interesses nacionais diversos e pela dinâmica geopolítica global. A aproximação entre Espanha e França representa um passo, mas a unificação efetiva do bloco diante de um gigante como a China ainda é um caminho a ser trilhado, com desafios significativos à frente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España