O governo da Espanha autorizou, via Conselho de Ministros, um investimento inicial de 24,5 milhões de euros na Attypics Photonics, uma empresa baseada em Valência especializada em chips fotônicos. O aporte é realizado por meio da Sociedad Española para la Transformación Tecnológica (SETT) e faz parte de uma estratégia de coinvestimento público-privado, estruturada em parceria com a Baladre Capital. A operação marca um movimento relevante dentro do Perte Chip, o plano nacional de recuperação financiado por fundos europeus Next Generation EU, que busca consolidar a indústria local de semicondutores.

A iniciativa prevê um investimento total de 50 milhões de euros nesta primeira fase, com a possibilidade de expansão para até 200 milhões de euros em uma etapa subsequente. A Attypics Photonics, fundada em abril de 2026, é um desdobramento direto da Infraestrutura Científica e Tecnológica Singular MICRONANOFABS-NTC da Universidade Politécnica de Valência, que acumula mais de 15 anos de expertise técnica na fabricação de circuitos fotônicos.

O papel estratégico da fotônica

A fotônica, que utiliza a luz em vez de elétrons para processar informações, é considerada um pilar fundamental para a próxima geração de semicondutores. Ao contrário dos chips tradicionais, os circuitos integrados fotônicos permitem velocidades de transmissão de dados superiores e menor consumo energético, características essenciais para aplicações em inteligência artificial e telecomunicações de alta performance.

O projeto da Attypics alinha-se diretamente aos objetivos da European Chips Act 2.0, buscando reduzir a dependência europeia de fornecedores asiáticos e americanos. A empresa se posiciona como um player 'lab-to-fab', ou seja, capaz de transitar da pesquisa acadêmica para a escala industrial, oferecendo serviços de prototipagem e fabricação em larga escala.

Mecanismos de expansão industrial

A estrutura do negócio prevê a instalação de salas limpas em Paterna, com uma área inicial de 1.240 metros quadrados, que deve ser ampliada para mais de 7.500 metros quadrados em uma segunda fase. A capacidade de fabricação de obleas de 200 e 300 mm é o diferencial técnico que permitirá à startup atender demandas de mercado mais complexas e competitivas.

O modelo de governança, com a SETT detendo 49% e a Baladre Capital 51% do capital, reflete uma tentativa de equilibrar o controle estatal e a agilidade do capital privado. Este arranjo visa garantir que o suporte financeiro não se limite apenas ao subsídio, mas que seja acompanhado por uma gestão orientada à eficiência e ao retorno de mercado.

Impactos no ecossistema e emprego

A criação de 100 postos de trabalho altamente qualificados na fase inicial, com projeção de superar 300 empregos na segunda fase, sublinha o impacto econômico esperado para a região de Valência. Além dos empregos diretos, o projeto deve estimular uma cadeia de suprimentos local, fortalecendo a infraestrutura tecnológica do país.

A aposta em talentos formados em instituições públicas, como a Universidade Politécnica de Valência, demonstra uma estratégia de retenção de capital intelectual que historicamente tem sido um desafio para o ecossistema tecnológico europeu.

Desafios de escala e mercado

Embora o suporte governamental seja robusto, a transição para a escala comercial plena apresenta desafios operacionais significativos. A capacidade da empresa em converter a pesquisa acadêmica em produtos competitivos globalmente será o principal indicador de sucesso nos próximos anos.

O monitoramento da execução deste investimento será fundamental para avaliar se o modelo de 'SEPI Digital' conseguirá, de fato, gerar um polo de inovação autossustentável ou se dependerá de aportes públicos recorrentes para manter sua competitividade frente aos gigantes globais do setor.

O investimento na Attypics Photonics coloca a Espanha em uma posição de destaque na corrida europeia por autonomia tecnológica. A evolução das instalações em Paterna e a capacidade da empresa em capturar contratos privados serão os fatores que definirão se este projeto se tornará um modelo exportável de política industrial ou um caso isolado de fomento estatal. A trajetória da startup a partir de agora será acompanhada de perto por investidores e reguladores do setor de semicondutores.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España