A confiança pública na ciência apresenta um panorama global heterogêneo, com a Espanha emergindo como o país onde os cidadãos mais depositam fé nas descobertas científicas. Segundo o Wellcome Global Monitor 2026, que ouviu mais de 140 mil pessoas em 140 nações em 2025, 67,9% dos espanhóis confiam “muito” na ciência. Em contraste, apenas 5,8% dos togoleses expressam o mesmo nível de confiança, ilustrando a vasta diferença nas percepções mundiais.

O estudo revela que a Europa concentra a maioria dos países com alta confiança científica, com 12 das 16 nações apresentando mais da metade de seus respondentes com elevado grau de confiança. Os Estados Unidos se posicionam em 13º lugar, com 52,5% de confiança. O Brasil aparece na 48ª posição, com 30,8% de confiança, ao lado do Azerbaijã.

Fatores que Moldam a Confiança Pública

Embora países com economias avançadas e altos níveis educacionais, como Finlândia, Alemanha e Suécia, figurem entre os mais confiantes, os resultados de Uzbequistão (63,8%) e Tajiquistão (60,7%) — que ocupam o terceiro e quarto lugares, respectivamente — desafiam a noção de que apenas o desenvolvimento econômico e a educação formal determinam a fé na ciência. Estes países de maioria muçulmana demonstram que a religião não é, por si só, um impedimento à confiança científica, embora a interpretação cultural e religiosa dos achados científicos possa variar significativamente.

A pesquisa do Wellcome Global Monitor sugere que a correlação entre o nível educacional e a confiança na ciência não é linear. Não foram encontradas evidências robustas de uma relação consistente entre a confiança pública e a literacia científica geral, nem uma associação clara em nível nacional entre a confiança e os gastos governamentais em educação. Isso indica que outros fatores, como a forma como a ciência é comunicada e percebida dentro de diferentes contextos culturais, desempenham um papel crucial.

A Complexa Relação com a Religião

A análise sobre o papel da religião na confiança científica aponta para uma complexidade que desmente simplificações. Uzbequistão e Tajiquistão, com predominância islâmica, estão entre os mais confiantes, enquanto o Paquistão, também de maioria muçulmana, figura próximo ao final do ranking, com apenas 9,3% de confiança. Essa disparidade ressalta que a identidade religiosa por si só é um preditor fraco da atitude em relação à ciência.

Estudos paralelos indicam que, em muitas tradições religiosas, como o islamismo, o hinduísmo e o budismo, a ciência e a religião são frequentemente vistas como compatíveis. A forma como as comunidades religiosas interpretam e integram descobertas científicas, juntamente com o contexto cultural e a confiança em instituições locais, são determinantes mais significativos do que a afiliação religiosa em si. A confiança científica, portanto, não é uma questão de fé contra razão, mas de como essas esferas interagem em diferentes sociedades.

Tendência Global: Queda na Confiança

Um dado preocupante da pesquisa é a queda geral na confiança pública na ciência. Globalmente, a porcentagem de respondentes que confiam “um pouco” ou “muito” na ciência diminuiu de 80% em 2020 para 72% em 2025. Essa redução de oito pontos percentuais em cinco anos levanta questões sobre a sustentabilidade da relação entre sociedade e ciência.

Discussões acadêmicas, como as do Harvard Global Health Institute, associam essa desconfiança a fatores estruturais, como desigualdades, falhas institucionais, disseminação de desinformação e polarização política. Para reverter essa tendência, não basta apenas o avanço científico; é fundamental que haja inclusão econômica, instituições confiáveis e uma comunicação pública eficaz que construa e mantenha a fé na ciência.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Ciência

A pesquisa do Wellcome Global Monitor 2026 deixa em aberto diversas questões sobre como fortalecer a confiança na ciência em um mundo cada vez mais complexo. A disparidade entre países, mesmo aqueles com características culturais ou religiosas semelhantes, sugere que cada contexto nacional exige abordagens específicas para promover o engajamento público e a credibilidade científica.

Será que a queda global na confiança é uma tendência transitória ou um reflexo de mudanças mais profundas na relação entre a sociedade e o conhecimento científico? Observar como os países com baixa confiança — como o Togo e o Paquistão — e aqueles com alta confiança — como a Espanha e a Finlândia — lidam com desafios emergentes, como as mudanças climáticas e as novas tecnologias, será crucial para entender o futuro da relação entre ciência e sociedade.

A busca por uma confiança científica robusta e generalizada exige um esforço contínuo que transcende laboratórios e publicações acadêmicas, adentrando o tecido social e cultural de cada nação. A forma como governos, instituições e a própria comunidade científica responderão a essa necessidade determinará o seu papel e relevância no século XXI.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist