A Espanha avança com uma nova regulamentação para centros de dados, preparando um real decreto para estabelecer critérios rigorosos de sustentabilidade, resiliência e soberania digital. A iniciativa é parte da estratégia estatal ‘IA360’, que visa posicionar o país como líder em inteligência artificial (IA) responsável e ética até 2027. No entanto, a proposta enfrenta forte resistência da principal associação do setor, a SpainDC, que alega que as novas exigências podem comprometer investimentos significativos e a atratividade do país para a indústria.

A futura legislação busca, primordialmente, ordenar o crescimento exponencial dos centros de dados sem sobrecarregar a rede elétrica nacional. O projeto de real decreto revela que as solicitações de acesso à rede por parte desses empreendimentos já superam em muito a demanda estimada para 2030. Sem um controle adequado, o consumo energético desses data centers poderia exigir investimentos vultosos em infraestrutura elétrica, cujos custos seriam repassados aos cidadãos. Para mitigar esse risco, o governo exigirá que os centros de dados comprovem, a cada hora de operação, que pelo menos 80% de sua energia consumida provém de fontes renováveis, idealmente de nova geração.

Sustentabilidade e Soberania como Pilares

A nova regulamentação não se limita ao consumo energético. A sustentabilidade ambiental emerge como um fator crucial para a priorização de projetos. O governo pretende dar preferência a instalações que demonstrem uso eficiente de água e solo, além de aquelas que contribuam para a autonomia tecnológica da Espanha. Essa abordagem reflete uma visão estratégica de longo prazo, onde o desenvolvimento de infraestrutura digital anda de mãos dadas com a responsabilidade ambiental e o fortalecimento da capacidade tecnológica nacional. A própria futura gigafábrica europeia de IA, que a Espanha almeja sediar com um consórcio público-privado, deverá ser concebida sob este novo marco normativo, garantindo que desde o início os padrões de sustentabilidade e soberania sejam atendidos.

A Resistência da Indústria e os Riscos de Investimento

A SpainDC, associação espanhola de data centers, expressou preocupação com o impacto financeiro do decreto. Segundo a entidade, cerca de 9 bilhões de euros em investimentos para centros de dados na Espanha estão em jogo. Há relatos de que três empresas internacionais já consideraram frear seus projetos no país caso o real decreto seja aprovado em sua forma atual. A associação argumenta que as exigências do governo podem entrar em conflito com projetos estratégicos, inclusive com a própria gigafábrica de IA, que, segundo a patronal, não cumpriria os requisitos propostos. O presidente da SpainDC, Emilio Díaz, lamentou a falta de diálogo prévio com o setor, afirmando que o decreto contém "coisas muito graves" para a indústria e que a entidade foi apenas notificada para apresentar suas alegações.

IA360: Uma Estratégia Abrangente

O real decreto sobre centros de dados é apenas um dos 14 projetos considerados "tratores" dentro da estratégia estatal ‘IA360’. Esta iniciativa abrangente visa consolidar a Espanha como um hub de inteligência artificial responsável. A estratégia se desdobra em oito áreas de atuação, incluindo infraestrutura, segurança, educação, talento, desenvolvimento tecnológico, difusão, setor público e projeção internacional. No âmbito da infraestrutura, o plano propõe o aproveitamento de energia renovável e fibra ótica para escalar a capacidade de computação de forma sustentável. A segurança cibernética, a proteção de infraestruturas críticas e a supervisão de modelos avançados pela Agência Espanhola de Supervisão da Inteligência Artificial (Aesia) também são pontos centrais. A formação e o talento são abordados através da alfabetização digital, combate a vieses da IA e atração de profissionais qualificados, buscando reduzir a brecha de especialistas.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Infraestrutura Digital Espanhola

O cenário regulatório para centros de dados na Espanha levanta questões importantes sobre o equilíbrio entre o avanço tecnológico e a sustentabilidade. Enquanto o governo busca garantir um desenvolvimento responsável e alinhado com metas ambientais e de soberania digital, a indústria teme a perda de competitividade e o desvio de investimentos. A eficácia do decreto em atrair e reter projetos de alto valor agregado, ao mesmo tempo em que promove a sustentabilidade, será um fator determinante para o futuro do setor. Resta saber se o diálogo entre o executivo e a patronal levará a ajustes que satisfaçam ambas as partes, permitindo que a Espanha consolide sua posição no cenário global de IA sem sacrificar seu potencial econômico.

A aprovação deste decreto marca um momento decisivo para a infraestrutura digital espanhola, sinalizando uma clara intenção governamental de moldar o futuro do setor sob novas premissas. A forma como a indústria responderá e se adaptará a essas exigências definirá o ritmo e a escala do desenvolvimento de centros de dados no país nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España