A origem das células eucariotas — as unidades fundamentais que compõem animais, plantas e fungos — acaba de ganhar uma camada adicional de complexidade. Uma nova investigação conduzida pelo Instituto de Investigação Biomédica (IRB) de Barcelona e pelo Barcelona Supercomputing Center, publicada recentemente na revista Nature, desafia a visão tradicional de que a vida complexa surgiu a partir de uma simbiose direta entre dois organismos procariotas.

Segundo a reportagem do El Confidencial, o estudo sugere que o processo evolutivo que deu origem ao ancestral comum de todas as células eucariotas (LECA) foi, na verdade, uma rede prolongada de trocas genéticas envolvendo múltiplos atores microbianos. A descoberta, impulsionada pelo uso intensivo do supercomputador MareNostrum, propõe que a integração da mitocôndria foi apenas a etapa final de um longo período de alianças e transferências genéticas entre diversos grupos de bactérias e vírus.

Além da teoria endossimbiótica clássica

Desde 1967, a biologia evolutiva tem sido amplamente guiada pela teoria da endossimbiose, proposta por Lynn Margulis. Essa visão estabelecia que a célula eucariota surgiu da fusão entre uma arquea e uma bactéria, que posteriormente se tornaria a mitocôndria. Embora essa premissa continue sendo um pilar científico, a nova análise sugere que a história é significativamente mais ramificada do que se supunha.

O grupo liderado por Toni Gabaldón identificou sinais genéticos de outros dois grupos bacterianos, as Myxococcotas e as Planctomycetotas, que teriam interagido com o hospedeiro original muito antes da incorporação da mitocôndria. Essa perspectiva transforma o modelo de uma relação binária em um ecossistema dinâmico, no qual a complexidade celular teria sido construída gradualmente por meio de diversas doações de genes ao longo de longos períodos evolutivos.

O papel dos vírus gigantes na evolução

Um dos achados mais notáveis da pesquisa é a participação de vírus gigantes, especificamente do grupo Nucleocytoviricota. Esses vírus, conhecidos por possuírem genomas extensos e funções celulares complexas, teriam atuado como vetores importantes para a transferência de material genético entre os microrganismos envolvidos na formação do LECA.

O mecanismo proposto pelos pesquisadores sugere que esses vírus podem integrar-se ao genoma do hospedeiro, funcionando como uma espécie de motor de complexidade. Essa hipótese oferece uma explicação plausível para como o hospedeiro arqueano teria adquirido novas capacidades metabólicas e estruturais antes mesmo de obter a mitocôndria, permitindo que se tornasse progressivamente mais autônomo dentro da comunidade microbiana original.

Implicações para a biotecnologia e pesquisa

A validação desses resultados por meio de modelos matemáticos e computacionais robustos, executados no MareNostrum, abre novas frentes para a biologia sintética. Ao compreender com maior precisão os mecanismos de transferência genética e a dinâmica das interações entre microrganismos ancestrais, os cientistas podem vislumbrar aplicações práticas na engenharia genética e, potencialmente, na criação de sistemas celulares artificiais a partir de consórcios microbianos.

Embora a comunidade científica, representada por especialistas como William C. Ratcliff e Alex de Mendoza, elogie a solidez lógica do trabalho, há um consenso de que a pesquisa apenas começa a desvendar o "buraco negro" da biologia evolutiva. O desafio agora reside em expandir as bases de dados genômicos, que ainda podem apresentar vieses de representação, para confirmar se esses padrões de interação foram universais no surgimento dos eucariotas.

Fronteiras da incerteza científica

O que permanece em aberto é a extensão exata da contribuição de cada grupo bacteriano identificado. Como ressalta Iñaki Ruiz-Trillo, a história evolutiva de um gene específico nem sempre coincide perfeitamente com a trajetória do organismo que o porta, exigindo cautela na interpretação de afinidades genéticas encontradas em bancos de dados contemporâneos.

O futuro da investigação dependerá da capacidade de integrar novos dados genômicos à medida que se tornam disponíveis, refinando as reconstruções ancestrais. O que parece claro é que a narrativa da evolução celular está sendo reescrita para incluir um elenco muito mais vasto, transformando uma história de dois em uma complexa rede de cooperação microbiana.

A compreensão de que nossas células podem ser o produto de um "ménage à trois" — ou de uma aliança microbiana ainda mais ampla — altera fundamentalmente a percepção sobre a nossa própria origem. Resta saber como essas descobertas serão incorporadas aos manuais escolares e se, em breve, a biologia sintética conseguirá replicar, em laboratório, processos que a natureza levou eras para consolidar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech