Dados recentes do Net Zero Tracker confirmam que os Estados Unidos e o Irã tornaram-se os únicos países entre os 20 maiores emissores globais de dióxido de carbono (CO2) a não possuírem metas de emissões líquidas zero. A constatação, trazida pela Carbon Brief, contrapõe narrativas políticas que sugerem que o Reino Unido estaria agindo de forma isolada ao manter compromissos climáticos rigorosos. Enquanto figuras políticas conservadoras britânicas, como Kemi Badenoch, argumentam que o país estaria em uma trajetória de desarmamento econômico unilateral, o cenário global aponta para uma direção oposta, com 140 das 198 nações do mundo adotando formalmente metas de net-zero.
A tese de que o compromisso britânico seria um caso isolado ignora a adesão massiva de outras grandes economias. Desde que o Reino Unido estabeleceu sua meta em 2019, potências como China, Índia, Arábia Saudita e Rússia formalizaram seus próprios objetivos de descarbonização entre 2020 e 2021. Atualmente, cerca de 74% das emissões globais estão cobertas por algum tipo de compromisso nacional, com 34 nações, incluindo o Reino Unido, tendo incorporado essas metas diretamente em suas legislações nacionais, o nível mais elevado de compromisso institucional possível no combate às mudanças climáticas.
O isolamento estratégico das potências
A ausência de metas nos Estados Unidos, o maior emissor histórico desde o início da Revolução Industrial, reflete uma mudança de curso sob a atual administração Trump, que reverteu os compromissos assumidos durante o governo Biden. No entanto, o cenário interno americano é fragmentado, com 18 regiões e 43 cidades mantendo metas locais de descarbonização, apesar da falta de uma política federal coordenada. A situação do Irã, por outro lado, é frequentemente analisada sob a ótica da dependência de combustíveis fósseis e da volatilidade dos mercados de energia, elementos que, segundo analistas, tornam a ausência de um plano de transição um risco de segurança nacional.
O debate sobre o net-zero transcende a questão ambiental e toca profundamente na economia. A experiência britânica, que reduziu suas emissões em 54% desde 1990 enquanto quase dobrou o tamanho de sua economia, serve como estudo de caso sobre a viabilidade da transição energética. A resistência política ao net-zero, ao ignorar esses dados, acaba por ignorar a crescente necessidade de resiliência contra choques de preços nos mercados globais de energia, que afetam diretamente o custo de vida e a estabilidade industrial de nações dependentes de recursos fósseis.
Dinâmicas de mercado e incentivos
O mecanismo por trás da resistência ao net-zero nos Estados Unidos e no Irã é complexo e envolve interesses estruturais distintos. Nos EUA, o lobby dos combustíveis fósseis e a polarização política transformaram a política climática em um campo de batalha ideológico, onde a transição é pintada como um fardo econômico. Já no Irã, a economia do país é intrinsecamente ligada à exportação de petróleo, o que cria um incentivo estrutural para manter o status quo, apesar da vulnerabilidade do país a crises geopolíticas que frequentemente impactam sua capacidade de operação no mercado internacional.
Para o mercado global, a discrepância entre as nações que buscam a neutralidade de carbono e aquelas que a rejeitam cria um ambiente de incerteza regulatória. Empresas multinacionais que operam nesses dois países enfrentam o desafio de alinhar suas operações globais a padrões de sustentabilidade cada vez mais rígidos, enquanto operam em jurisdições que caminham na contramão das tendências globais. Essa divergência pode resultar em barreiras comerciais e custos de conformidade mais elevados para companhias que buscam manter operações em mercados com diferentes perfis de emissões.
Implicações geopolíticas e para o ecossistema
As implicações geopolíticas da falta de metas claras são profundas. A dependência de fontes de energia fósseis, em um mundo que se movimenta para a eletrificação e para a eficiência energética, expõe os países a choques de oferta e volatilidade de preços que podem desestabilizar economias emergentes e desenvolvidas. Para o Brasil, que possui uma matriz energética relativamente limpa, o cenário global reforça a necessidade de manter uma política de transição energética clara para atrair investimentos estrangeiros que buscam mercados alinhados com metas globais de sustentabilidade.
Além disso, a divergência entre EUA e o restante do mundo pode forçar uma reconfiguração nas cadeias de suprimentos globais. Se os Estados Unidos não acompanharem a transição energética, produtos americanos podem enfrentar tarifas de carbono em mercados como a União Europeia, que já implementa mecanismos de ajuste de fronteira. Esse cenário coloca em risco a competitividade de longo prazo da indústria americana, que pode se ver isolada em um mercado global que valoriza cada vez mais a pegada de carbono como métrica de eficiência.
O futuro dos compromissos climáticos
A incerteza sobre o futuro das políticas climáticas americanas permanece como o ponto de interrogação central para o próximo ciclo econômico. Observadores devem monitorar se a pressão de estados e cidades americanas será suficiente para forçar uma mudança na postura federal ou se o país continuará a divergir significativamente dos seus pares globais. A questão que permanece é se o custo da inação será superado pelo custo de uma transição tardia e desordenada, especialmente em um contexto de transição energética global acelerada.
Da mesma forma, o comportamento das nações que compõem o grupo dos 20 maiores emissores será o termômetro para medir a eficácia dos acordos internacionais. Se a tendência de 140 nações se mantiver, o isolamento de EUA e Irã pode se tornar um ônus político e econômico cada vez mais difícil de sustentar. O debate, longe de ser encerrado, apenas começa a entrar em uma fase onde a retórica política será confrontada pela realidade dos mercados de energia e pelas exigências de competitividade global.
A trajetória das emissões globais nos próximos anos será moldada não apenas pela vontade política, mas pela capacidade das nações em conciliar segurança energética com a transição inevitável para fontes de baixo carbono. A divergência atual entre as nações é um lembrete de que o caminho para a neutralidade climática é, acima de tudo, um exercício de realismo econômico e estratégico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





