Para uma geração de americanos que não era nascida em 2001, o 11 de Setembro é um evento histórico distante, aprendido em sala de aula. O que eles aprendem, no entanto, depende drasticamente de onde estudam. Hoje, ao menos 40 estados americanos possuem diretrizes para o ensino sobre os ataques, mas as abordagens variam de forma tão profunda que revelam a ausência de uma memória nacional coesa.
Esta divergência não é meramente pedagógica; ela é um sintoma da fratura política e cultural que define os Estados Unidos contemporâneos. A maneira como cada estado enquadra a narrativa — seja como um capítulo da guerra ao “terrorismo islâmico radical” ou como um ponto de partida para discutir discriminação e os limites do poder estatal — transforma os currículos escolares em um campo de batalha simbólico sobre a identidade do país, segundo uma análise da Associated Press publicada pela Fortune.
Uma memória, múltiplas narrativas
A fragmentação é nítida nos detalhes. No Texas, o 11 de Setembro é ensinado como um exemplo de “terrorismo islâmico radical”. No Alabama, o evento é contextualizado dentro do “envolvimento militar dos EUA em conflitos internacionais desde 1980”. Já o Colorado sugere que os alunos analisem a “discriminação contra pessoas do Oriente Médio” no pós-ataques, enquanto o Novo México abre espaço para discussões críticas sobre a prisão de Guantánamo e o escândalo de abuso de prisioneiros em Abu Ghraib.
Essa variação não é aleatória. Estados com governos conservadores que recentemente reformaram seus currículos de ciências sociais, como Flórida e Louisiana, têm adotado uma abordagem mais prescritiva. A Flórida chegou a determinar por lei que certos cursos dediquem 45 minutos ao tema, enquanto a Louisiana, em seu “Freedom Framework”, introduz o assunto já na segunda série. O objetivo, segundo o superintendente de educação do estado, é mostrar que “ameaças à nossa liberdade são reais”. A mensagem é clara: o 11 de Setembro é mobilizado para reforçar uma visão específica de patriotismo e resiliência nacional.
Do trauma à história distante
Para os educadores, o desafio mudou radicalmente. Se nos anos seguintes aos ataques a preocupação era lidar com o trauma de alunos que vivenciaram o evento, hoje a tarefa é explicar fatos básicos para uma audiência que vê o 11 de Setembro como história antiga. O foco, como aponta a diretora de educação do National Sept. 11 Memorial & Museum, é “ajudá-los a entender como o 11 de Setembro, em última análise, moldou o mundo em que vivem”.
Essa necessidade deu origem a um esforço institucional para formar professores, liderado por memoriais como o de Nova York e o do Voo 93, na Pensilvânia. O temor das famílias das vítimas, expresso por um familiar durante um desses treinamentos, é a “omissão total de contar a história”. A ausência de um currículo unificado transfere para essas instituições e para professores individuais a responsabilidade de construir uma ponte entre o evento e suas consequências duradouras, da vigilância em massa à geopolítica atual.
A pergunta “Por que eles quiseram colidir conosco?”, feita por um menino de 9 anos no memorial em Nova York, é a questão fundamental. Vinte e cinco anos depois, a América não parece ter uma resposta única. A batalha sobre como ensinar o 11 de Setembro é, no fundo, uma disputa sobre como a nação deve se lembrar de si mesma e de seu papel no mundo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





