A Estratégia Perdida
A capacidade militar dos Estados Unidos é inquestionável, ostentando tecnologia de ponta e soldados altamente treinados. No entanto, a história recente, marcada por conflitos como as guerras no Iraque e no Vietnã, e mais recentemente a escalada de tensões com o Irã, sugere uma falha recorrente em alcançar objetivos estratégicos decisivos. Eliot Cohen, renomado estrategista e autor de "The Strategist: How to Think About War and Politics", argumenta que o problema não reside na força militar em si, mas na diluição e no esquecimento do próprio conceito de "estratégia".
Cohen, em conversa com Yascha Mounk, resgata a origem grega da palavra "strategos" (general), enfatizando que a estratégia é o cerne da arte da guerra. Ele critica a forma como o termo se tornou genérico e superficialmente aplicado, levando a uma perda da capacidade de pensar estrategicamente. Para Cohen, mesmo com armamentos avançados e táticas impecáveis, o fracasso em um conflito é frequentemente atribuído a decisões estratégicas equivocadas, e não a limitações operacionais ou de capacidade bélica. O impasse com o Irã, por exemplo, ilustra essa dinâmica: mesmo com superioridade militar, os EUA enfrentam um cenário complexo onde a falta de uma "teoria da vitória" clara e a dificuldade em manter o alinhamento com aliados podem minar os esforços americanos e levar a resultados embaraçosos.
O Contexto e o Inimigo: Pilares da Estratégia
Um dos pilares centrais da análise de Cohen é a importância fundamental de entender o "contexto mais amplo" e "quem são os caras" – ou seja, compreender profundamente o adversário. Ele lamenta que, em vez de uma visão holística, as inteligências e os formuladores de políticas tendem a se concentrar em métricas quantitativas, como o número de tanques ou aviões, negligenciando as motivações, ambições e a natureza intrínseca do inimigo. Essa falha, segundo ele, é um erro cometido repetidamente, desde a subestimação da Ucrânia pela Rússia, passando pela incompreensão de Israel sobre Yahya Sinwar, até a forma como os EUA abordaram o regime iraniano.
Cohen destaca que a natureza dos regimes, sejam democráticos ou autoritários, também afeta essa percepção. Enquanto ditaduras podem projetar uma imagem de unidade e força, democracias exibem divisões internas que podem ser mal interpretadas como fraqueza por adversários. Ele também aponta para o fenômeno psicológico do "ancoramento", onde visões antigas de um inimigo ou situação persistem mesmo após mudanças significativas, como ocorreu com a Alemanha nazista ao subestimar a União Soviética ou ao se fixar na performance soviética na Guerra de Inverno, ou a percepção inicial sobre a Ucrânia em 2014, ignorando as transformações posteriores.
A dificuldade em compreender motivações culturais, civilizacionais e, especialmente, religiosas, também contribui para essa cegueira estratégica. A dificuldade de secularistas ocidentais em entender a motivação religiosa por trás de ações extremistas, por exemplo, foi um dos fatores que levaram aos embates pós-11 de setembro. A compreensão do inimigo, portanto, vai além da contagem de recursos; exige uma imersão em sua psicologia, cultura e objetivos.
Objetivos e Meios: A Dança da Política e da Guerra
Citando Clausewitz, Cohen reforça que a guerra é a continuação da política por outros meios. Contudo, ele observa que essa máxima, embora famosa, é frequentemente mal compreendida ou ignorada. A política, por sua natureza, é dinâmica e mutável, e os objetivos de guerra devem refletir essa fluidez. A ideia de definir objetivos claros e imutáveis, e simplesmente "deixar os militares fazerem o trabalho", é uma visão simplista e perigosa.
O exemplo da Primeira Guerra do Golfo, frequentemente citado como um modelo de definição de objetivos por George H.W. Bush, é desconstruído por Cohen. Os quatro objetivos declarados, embora concisos, não capturavam a complexidade da situação. Um objetivo, como a segurança dos cidadãos americanos, tornou-se obsoleto antes mesmo do início das hostilidades. Outros, como a restauração do governo do Kuwait, eram conceitualmente ambíguos, enquanto objetivos não declarados, como a derrubada de Saddam Hussein, moldaram o desdobramento do conflito. A própria guerra da Polônia, que começou como uma defesa nominal, transformou-se em um jogo geopolítico que culminou na sua inclusão na esfera de influência soviética, demonstrando como os objetivos de guerra podem evoluir drasticamente.
A definição dos "meios" para atingir esses objetivos também é um campo minado. Cohen reconhece que, muitas vezes, as nações entram em conflito utilizando tecnologias ou táticas nunca antes empregadas em larga escala, tornando a clareza sobre os meios escassa. Ele compartilha sua própria experiência, admitindo que subestimou a dificuldade e a relutância em conduzir campanhas de contrainsurgência eficazes no Iraque. O que parecia um meio simples – a entrada em Bagdá – revelou-se insuficiente para os objetivos de longo prazo, exigindo o desenvolvimento de meios não convencionais, como o governo militar, que os EUA não estavam preparados para empregar de forma eficaz inicialmente.
Lições para o Futuro: O Que Observar
A análise de Cohen aponta para uma falha sistêmica na forma como os Estados Unidos e outras potências ocidentais abordam a estratégia em conflitos. A ênfase excessiva na capacidade militar, em detrimento de uma compreensão profunda do contexto geopolítico, das motivações do inimigo e da natureza mutável dos objetivos políticos, tem levado a resultados aquém do esperado. A contínua tensão com o Irã, com suas consequências ainda em aberto, serve como um lembrete sombrio de que a superioridade tecnológica não garante a vitória estratégica.
O desafio reside em resgatar a seriedade e a profundidade do pensamento estratégico. Isso implica em cultivar a empatia – não apenas com aliados, mas também com o inimigo –, a humildade intelectual para reconhecer os limites da previsão e um realismo profundo sobre a necessidade de adaptação. A estratégia não é um exercício puramente acadêmico, mas uma disciplina intrinsecamente ligada à implementação e à capacidade de ajustar planos diante da realidade em constante mudança. As lições de Winston Churchill, com sua análise detalhada e foco na coordenação de meios, oferecem um farol para essa busca.
As perguntas que permanecem são sobre a capacidade das atuais estruturas de governança em incorporar essa visão estratégica de forma consistente. A tendência a se ancorar em percepções passadas, a subestimar a resiliência de adversários ou a confundir poder militar com influência estratégica continuam a ser obstáculos significativos. A busca por uma estratégia eficaz, portanto, não é apenas um desafio militar, mas um teste contínuo da capacidade de compreensão e adaptação em um mundo complexo e volátil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





