A percepção global dos Estados Unidos como um farol de esperança e dignidade universal parece estar se esvaindo. Uma recente pesquisa encomendada pela Rockefeller Foundation, com 35.000 participantes em 34 países, revelou um dado preocupante: um em cada três pessoas no mundo vê os EUA como uma ameaça, superando a China nesse quesito em metade das nações consultadas. Este cenário contrasta drasticamente com a imagem histórica dos EUA como a "última melhor esperança da Terra", projetada por figuras como John F. Kennedy e encapsulada na metáfora da "cidade sobre a colina". A publicação da pesquisa em um momento de reavaliação da política externa americana levanta questões urgentes sobre a erosão do "soft power" e a necessidade de uma redefinição estratégica para recuperar a confiança e a liderança global.
O Declínio da Autoridade Moral Americana
Por décadas, a autoridade moral dos Estados Unidos foi construída sobre um compromisso com a dignidade humana universal, refletida em sua fundação e em instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial, como a ONU. Durante a Guerra Fria, mesmo com falhas militares, os EUA detinham a vantagem dos "corações e mentes" das pessoas que aspiravam ao sonho americano. Essa liderança, sustentada por investimentos concretos como o Plano Marshall e programas de ajuda ao desenvolvimento, não apenas promovia o bem global, mas também fortalecia os interesses nacionais americanos, desde negociações nucleares até a dominância do dólar. A ideia de "Pax Americana" era, portanto, um reflexo não apenas de poder militar, mas de um vínculo invisível com nações que se identificavam com os ideais americanos.
No entanto, a abordagem recente dos EUA tem sido marcada por uma liderança baseada mais no medo do que no exemplo. O autor do artigo original aponta uma contradição gritante: enquanto um conflito recente custou cerca de US$ 38 bilhões — resultando em poucas baixas americanas, mas milhares de civis mortos e uma crise energética —, o orçamento de assistência externa global dos EUA foi cortado em um valor idêntico no mesmo período (entre 2024 e 2025). Essa troca de prioridades impacta diretamente populações vulneráveis, com análises indicando que milhões de pessoas poderão morrer até 2030 devido à diminuição do apoio à segurança alimentar e à prevenção de doenças. A suspensão de financiamento ao Programa Mundial de Alimentos, por exemplo, deixou 150.000 refugiados no Quênia sem o sustento necessário.
Estratégias para a Renovação da Influência
A pesquisa da Rockefeller Foundation também aponta para um caminho de renovação. Contrariando a ideia de que a ajuda externa é um fardo, 72% dos americanos acreditam que ela os torna mais seguros. Mais notavelmente, 81% dos americanos, incluindo 80% dos apoiadores de Donald Trump, preferem reformar a ajuda externa e fortalecer salvaguardas em vez de eliminá-la. Isso sugere um consenso sobre a necessidade de uma abordagem mais eficaz e moderna, que vá além das estruturas pós-Segunda Guerra Mundial.
A nova estratégia proposta foca em três pilares: investimentos em energia, uso de novas tecnologias como IA e a alavancagem de múltiplos setores. Investimentos em energia, como o programa Mission 300 da Rockefeller Foundation, que já levou eletricidade a quase 100 milhões de pessoas na África, demonstram o potencial de gerar ganhos humanitários e econômicos simultaneamente. O acesso à eletricidade impulsiona a educação feminina, melhora os diagnósticos em clínicas e fomenta o crescimento de negócios liderados por mulheres, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento. A transição de um modelo de "ajuda" para um de "investimento" é crucial, focando na geração de empregos e crescimento econômico.
O Papel da Tecnologia e das Parcerias Globais
O segundo pilar é a adoção responsável de novas tecnologias, como a Inteligência Artificial (IA). Ferramentas de IA já demonstraram aumentar a precisão diagnóstica em clínicas de saúde e têm o potencial de prever surtos de fome com antecedência, algo há muito desejado por organizações humanitárias. A IA pode ser uma aliada poderosa para capacitar comunidades a competir na economia moderna, desde que seu desenvolvimento e aplicação sejam guiados por princípios éticos e de benefício mútuo.
O terceiro pilar envolve a diversificação de atores e a criação de parcerias mais robustas. A iniciativa "Accra Reset", liderada por países africanos, exemplifica a transição de uma dependência de ajuda para investimentos impulsionados pelos próprios países em seus sistemas de saúde. A colaboração entre o setor privado, público e filantrópico, juntamente com empresas de tecnologia e sociedade civil, é essencial para moldar um futuro onde a IA beneficie a todos. A filantropia, em particular, pode fornecer o capital de risco necessário para inovar e testar novas abordagens, mitigando riscos para outros investidores.
A população americana demonstra um desejo claro de que seu país se posicione novamente como um defensor da dignidade humana universal, não apenas por compaixão, mas por reconhecer a ligação intrínseca entre autoridade moral, segurança e prosperidade. As ideias para alcançar esse objetivo já estão em andamento, e os Estados Unidos têm a oportunidade de liderar esse movimento novamente, adaptando suas estratégias às realidades de um mundo em constante transformação. A questão não é mais se os EUA devem liderar, mas como o farão de forma mais eficaz e sustentável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





