A União Europeia precisa garantir a própria provisão de proteínas para assegurar sua autonomia alimentar. A mensagem, direta e com ares de urgência, foi levada pelo ministro da Agricultura da Espanha, Luis Planas, a uma reunião informal de ministros do bloco em Dublin. Segundo reportagem da Forbes España, Planas defendeu a criação de um plano proteico como “essencial” para que o continente reduza sua dependência externa e fortaleça sua segurança alimentar.

A proposta espanhola não é um mero ajuste técnico na política agrícola. É um sintoma de uma reavaliação geopolítica em Bruxelas, onde a retórica da “autonomia estratégica” ganha cada vez mais peso. A dependência de cadeias globais de suprimentos, exposta durante a pandemia e agravada por conflitos, agora é vista como uma vulnerabilidade crítica. O apelo para incluir pesca e aquicultura na estratégia reforça a visão de que a segurança alimentar é uma questão de segurança nacional, e não apenas de mercado.

A geopolítica do prato

O pano de fundo da discussão é a crescente percepção de que a sustentabilidade, pilar do Pacto Verde Europeu, precisa andar de mãos dadas com a resiliência. O ministro espanhol foi claro ao afirmar que a inovação só será útil se “responder às necessidades reais” dos produtores e se for aplicável a diferentes escalas de produção. A leitura aqui é que a transição verde não pode se dar ao custo da competitividade ou da viabilidade do agronegócio europeu.

Nesse contexto, a busca por “proteínas a preço acessível” se torna um mandato. O movimento sugere um pragmatismo que pode modular as metas ambientais mais ambiciosas do bloco. Para países como o Brasil, grande exportador de commodities agrícolas para a Europa, a mudança de tom em Bruxelas é um sinal a ser monitorado de perto. Uma Europa mais autossuficiente em proteínas, vegetais e animais, pode reconfigurar fluxos comerciais importantes.

Inovação contra a seca

De forma complementar, Planas conectou a necessidade de autonomia proteica à crise climática, citando as secas recorrentes que afetam a Espanha e outros membros da UE. A solução, segundo ele, passa por um tripé: gestão de riscos com seguros agrícolas, modernização da irrigação e, notavelmente, a aplicação de “novas técnicas genômicas” para desenvolver culturas mais resistentes.

Este último ponto é particularmente relevante. A menção a ferramentas de edição genética, um tema historicamente controverso na Europa, sinaliza uma possível flexibilização regulatória em nome da segurança alimentar e da adaptação climática. A Espanha, com sua experiência de gestão hídrica e perdas agrícolas, posiciona-se como um laboratório para as políticas que podem vir a ser adotadas em todo o continente.

A questão que paira sobre a Europa não é apenas como produzir mais, mas como fazê-lo em um cenário de recursos hídricos cada vez mais escassos e com a pressão de uma agenda climática que não pode ser ignorada. O debate sobre a autonomia proteica é, no fundo, um debate sobre o futuro do próprio modelo produtivo e social europeu.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España