A cena no Salão Oval em maio de 2025 era carregada. Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, cogitava transformar o Canadá no 51º estado. Ao seu lado, Mark Carney, primeiro-ministro canadense, respondia com um firme "nunca" à ideia de que a independência de seu país fosse negociável. A parceria de décadas entre EUA e Canadá, antes um pilar de confiança mútua, transformava-se em um campo de negociação hostil, onde a força americana ameaçava subjugar a autonomia de seu vizinho. Essa dinâmica, descrita no ensaio "Freedom Needs Company" de Paweł Skała-Piękoś, não é apenas um episódio diplomático, mas um catalisador para a redefinição de alianças globais.

A escalada da retórica transatlântica e a incerteza sobre o futuro da relação EUA-Canadá levaram a União Europeia a propor um caminho inovador: a oferta de "membro associado" ao Canadá, um status inédito em seus tratados. Ursula von der Leyen, então presidente da Comissão Europeia, apresentou a ideia, que foi calorosamente recebida por Carney. A proposta, embora não confira direitos de membro pleno, estabelece uma intenção formal de aprofundar a cooperação, criando um precedente para novas formas de parceria em um cenário geopolítico em ebulição. A discussão sobre o nome e a substância dessa nova relação seria travada entre Bruxelas e o Parlamento Canadense, um processo que Trump advertiu poder ser visto como um ato hostil. O movimento, contudo, representa mais do que uma tentativa canadense de reduzir a dependência americana; é um desejo de ampliar uma comunidade comprometida com os valores da liberdade e da cooperação voluntária.

O Custo da Dependência e a Promessa da Cooperação

A experiência de países como a Polônia, que ingressou na União Europeia em 2004, oferece um espelho para as reflexões sobre a relação entre independência e pertencimento a um bloco maior. Antes do ingresso, o PIB per capita polonês era cerca de metade da média da UE; em 2025, estimativas preliminares indicavam que alcançaria 81% da média. Um relatório do Polish Economic Institute em 2024 estimou que o PIB per capita polonês foi cerca de 40% maior do que teria sido sem o acesso ao mercado e ao financiamento europeu. Essa convergência econômica, embora não seja a única medida de sucesso, ilustra como a participação em uma comunidade maior pode impulsionar o desenvolvimento e ampliar as capacidades de uma nação. Em contrapartida, o Brexit britânico serve como um alerta: a independência formal nem sempre se traduz em maior capacidade de ação. O Office for Budget Responsibility do Reino Unido prevê que a nova relação comercial com a UE reduzirá a produtividade de longo prazo em cerca de 4%. A comparação sugere que a busca por autonomia pode vir com custos significativos, especialmente quando as regras do jogo são definidas por outros.

Redefinindo a Soberania na Era da Interdependência

O conceito de soberania, tradicionalmente associado à autonomia absoluta de um Estado-nação, está sendo desafiado em um mundo cada vez mais interconectado. A proposta europeia de "membro associado" para o Canadá, por exemplo, sugere uma nova forma de soberania compartilhada, onde a colaboração em áreas estratégicas como defesa e tecnologia fortalece os parceiros sem diluir suas identidades nacionais. A participação do Canadá no programa Horizon Europe, com acesso a financiamento direto e liderança em consórcios, é um exemplo de como a cooperação pode gerar valor mútuo. Na esfera militar, a cooperação em uma brigada multinacional sob comando canadense na Letônia e a participação no SAFE, instrumento da UE para compras conjuntas de armamentos, demonstram um movimento em direção a capacidades de defesa integradas. Essas iniciativas visam construir uma "força europeia" robusta, capaz de agir independentemente, mas também de fortalecer a OTAN. A fabricante canadense Marconi Technologies, juntamente com a polonesa Enamor International, fornecerá rádios militares para a Polônia, evidenciando a sinergia concreta entre os parceiros.

O Desafio da Cooperação Voluntária e a Questão da "Subjecthood"

A colaboração voluntária, que permite que a liberdade de uns apoie a de outros, é o cerne da proposta de uma aliança mais profunda entre Europa e Canadá. No entanto, essa cooperação exige que os participantes tenham voz ativa na definição das prioridades comuns. O episódio da resistência da Valônia ao acordo CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement) entre a UE e o Canadá em 2016 ilustra a importância de mecanismos institucionais que permitam a dissidência e a negociação. A oposição regional bloqueou a assinatura belga, levando a declarações adicionais e um processo que, embora limitado, teve um efeito institucional real. A região, apesar de pequena, possuía um parlamento, um ministro-presidente e o direito formal de vetar a assinatura, garantindo que sua voz fosse ouvida. Essa capacidade de influenciar as regras, mesmo sem vencer todas as disputas, é o que o autor chama de "subjecthood" – o reconhecimento do indivíduo ou grupo como autor de sua própria vida e participante na correção das regras que o regem. A questão fundamental é se as ordens políticas, especialmente as lideradas por atores mais poderosos, oferecem caminhos reais de apelo e influência para aqueles sem recursos institucionais ou financeiros.

O Futuro da Liberdade em um Mundo Fragmentado

Em contraste com a abordagem europeia, a administração Trump, em sua estratégia de segurança nacional de dezembro de 2025, descreveu instituições supranacionais como ameaças à liberdade e soberania, enquanto incentivava "partidos patrióticos" e a resistência ao curso atual da Europa. A ordem executiva de Trump contra o escritório de advocacia Perkins Coie, citando seu trabalho para Hillary Clinton, e a subsequente decisão de um tribunal federal que a considerou inconstitucional, mostram um modelo onde a dissidência é confrontada com ordens executivas e a proteção só é resgatada por intervenção judicial. Enquanto a Europa busca construir uma comunidade onde a dissidência tem um "lugar permanente nos documentos" e o participante "retem pleno status", o modelo americano, em sua manifestação mais recente, parece inclinado a suprimir a oposição. A gratidão histórica pelos EUA não deve cegar para a necessidade de uma Europa forte e autônoma, capaz de defender seus princípios mesmo em oposição ao governo americano. A construção de uma Europa federal, com capacidade militar e econômica para se sustentar, é um projeto que visa garantir a liberdade e a "subjecthood" de seus cidadãos, fortalecendo o mundo livre como um todo, independentemente das turbulências políticas em Washington ou em outros centros de poder. A verdadeira questão reside em como a cooperação voluntária e a defesa dos valores democráticos podem ser sustentadas em um cenário global em constante transformação.

Source · 3 Quarks Daily