A Europa atravessa um momento de profunda incerteza geopolítica, marcado pela percepção de que o modelo de segurança e prosperidade construído no pós-guerra tornou-se insustentável. Segundo o analista Mark Leonard, cofundador do European Council on Foreign Relations, o continente enfrenta hoje uma crise existencial que vai muito além das tensões militares imediatas. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a mudança nas relações com a China revelaram que as premissas que sustentaram a estabilidade europeia nas últimas sete décadas falharam.
O debate, que ganha corpo em centros de pensamento e corredores governamentais, sugere que a Europa está em negação quanto à realidade de um mundo onde os Estados Unidos, antes o garantidor de primeira instância, tornaram-se um aliado volátil ou, em certos aspectos, desinteressado. A leitura editorial é que o continente precisa abandonar a ilusão de que a ordem baseada em regras globais será preservada por inércia, exigindo uma reconfiguração radical de sua própria identidade política e estratégica.
O colapso do modelo europeu
Historicamente, o sucesso europeu — e particularmente o alemão — foi construído sobre uma tríade de dependências: segurança terceirizada aos Estados Unidos, energia barata vinda da Rússia e demanda industrial sustentada pela China. Esse arranjo, que funcionou admiravelmente bem por décadas, desmoronou diante dos eventos recentes. A tentativa de manter o status quo, mesmo diante de rupturas evidentes, reflete uma incapacidade cultural e institucional de repensar as bases do próprio projeto europeu.
Para a Alemanha, o desafio é ainda mais visceral, pois sua identidade pós-guerra estava intrinsecamente ligada à ideia de um retorno ao Ocidente e à confiança absoluta na ordem internacional. O fato de que essa ordem está sendo contestada por potências que não compartilham dos mesmos valores coloca em xeque a soberania e a competitividade do bloco. A transição de um "projeto de paz" para um "projeto de guerra" não é apenas uma mudança orçamentária, mas uma ruptura psicológica que muitos líderes ainda relutam em aceitar plenamente.
A era da desordem e o fim da arquitetura global
Leonard argumenta que vivemos em um período de "desordem", onde as regras internacionais tornaram-se irrelevantes para os principais atores globais. Enquanto a abordagem tradicional ocidental era arquitetônica — focada em criar instituições e leis permanentes —, potências como a China adotam um modelo artesanal. Pequim não tenta criar um mundo perfeito do zero, mas utiliza as estruturas existentes para seus próprios fins, adaptando-se e improvisando conforme o cenário global se altera.
Essa flexibilidade chinesa, exemplificada pela estratégia de "dupla circulação" e pela competição local em setores como o de veículos elétricos, contrasta com o imobilismo europeu. A percepção de que a Europa pode simplesmente unir potências médias para manter a ordem liberal global é, segundo o autor, uma quimera. A realidade impõe que a Europa aprenda a criar sua própria ordem, operando em um ambiente onde o poder é exercido de forma muito mais bruta e pragmática.
O fim do universalismo unilateral
Um ponto central da reflexão é a crise do universalismo europeu. Durante muito tempo, a Europa impôs seus valores como padrões globais universais, muitas vezes sem o consentimento ou o diálogo necessário com outras nações. Essa postura de "professor do mundo" tornou-se não apenas ineficaz, dado o declínio do poder europeu de coerção, mas também contraproducente. A arrogância moral, muitas vezes vista como uma forma de hipocrisia, afasta potenciais aliados no Sul Global.
O desafio para o futuro é reconciliar os valores liberais internos, que são conquistas fundamentais da sociedade europeia, com a necessidade de uma política externa mais humilde e realista. Isso não significa abandonar o liberalismo, mas reconhecer que a Europa não tem mais o poder de ditar o destino de outras nações. A soberania, conceito que a China tenta instrumentalizar globalmente, tornou-se o novo campo de batalha onde a Europa precisa aprender a navegar sem a rede de proteção americana.
O futuro da autonomia estratégica
O que permanece incerto é se a Europa conseguirá transformar essa consciência de vulnerabilidade em ação coordenada. A ascensão de forças políticas de extrema-direita em países centrais, como França e Alemanha, é tanto um sintoma quanto um acelerador dessa insegurança. A questão que paira sobre Bruxelas é se o bloco conseguirá superar suas divisões internas para formular uma estratégia de defesa e economia que não dependa de terceiros.
Observar os próximos anos exigirá atenção à capacidade europeia de inovar tecnologicamente e de gerir suas próprias tensões sociais sem colapsar sob o peso do populismo. Se a Europa não conseguir se reinventar como um ator autônomo, corre o risco de se tornar um museu de luxo em um mundo definido por potências muito mais dispostas a exercer o poder de forma direta e sem as amarras das normas que o continente ainda tenta preservar.
A transição de um modelo de dependência para um de autonomia estratégica exigirá sacrifícios que a política europeia ainda não está pronta para realizar. A questão não é mais se a Europa deve mudar, mas se ela ainda possui o tempo necessário para adaptar suas instituições a um mundo que não espera por ela. A trajetória das próximas décadas dependerá da disposição do continente em aceitar a fragilidade de suas conquistas e lutar por elas em um cenário global cada vez mais hostil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





