A expansão desenfreada dos data centers na Europa colocou em rota de colisão as ambições de soberania digital do continente e a disponibilidade real de infraestrutura básica. Segundo relatório recente da empresa dinamarquesa Grundfos, intitulado "Scale and Secure: Powering Europe's Digital Sovereignty", a capacidade de carga dos servidores na União Europeia, atualmente em 10 GW, deve saltar para 35 GW até 2030. Esse crescimento, impulsionado pela demanda insaciável por poder computacional para IA e serviços em nuvem, ameaça sobrecarregar sistemas elétricos e recursos hídricos locais.

O alerta central aponta que o sucesso da transição digital europeia não dependerá apenas da disponibilidade de semicondutores, mas da capacidade de gerir restrições físicas de energia e água. Com o consumo de eletricidade desses centros projetado para atingir entre 7% e 9% do total da região até o final da década, a ineficiência ou a escolha inadequada de localização para novas instalações pode desencadear forte oposição pública e gargalos operacionais críticos.

Interdependência entre energia e resfriamento

A relação entre o consumo de energia e a demanda por água é frequentemente subestimada no planejamento de infraestrutura digital. Sistemas de resfriamento representam cerca de 38% do consumo elétrico médio de um data center, enquanto o uso de água em instalações de grande escala pode atingir até 18.927 metros cúbicos por dia — volume suficiente para abastecer 155.000 residências europeias.

Essa interdependência torna o resfriamento o ponto focal de qualquer estratégia de sustentabilidade. O desafio técnico, entretanto, é agravado pela falta de coordenação entre os operadores de TI, as concessionárias de energia e as autoridades municipais. Sem uma governança que integre eficiência hídrica e energética desde o projeto inicial, o setor corre o risco de se tornar um entrave ao desenvolvimento urbano e industrial, em vez de um motor de crescimento.

O embate entre regulação e mercado

A implementação de padrões mais rigorosos enfrenta resistência de grupos de lobby do setor, como a Climate Neutral Data Centre Pact e a CISPE, que buscam influenciar as diretrizes europeias de resiliência hídrica e eficiência. A tensão reflete um conflito de interesses entre a necessidade de escala rápida exigida pelo mercado e a imposição de regras ambientais que exigem investimentos em tecnologias de resfriamento mais eficientes e caras.

Para mitigar esses atritos, o relatório sugere que governos utilizem incentivos como créditos fiscais e mecanismos de financiamento verde. A ideia é que o setor privado seja estimulado a adotar soluções que reduzam o consumo de recursos, transformando a eficiência em uma vantagem competitiva em vez de um custo regulatório adicional.

Integração urbana e o papel da infraestrutura

Uma via promissora para o setor é a integração dos data centers com redes de aquecimento urbano, permitindo o reaproveitamento do calor gerado pelos servidores. A viabilidade desta solução depende menos de tecnologia e mais de alinhamento contratual e institucional entre as partes. A complexidade dessas negociações, contudo, tem travado a adoção em larga escala.

Para o ecossistema europeu, a questão central é se os data centers serão vistos como ativos estratégicos integrados ou como invasores de recursos. A resposta definirá se o continente conseguirá estabelecer um padrão global de coexistência entre infraestrutura tecnológica e preservação ambiental.

Perspectivas para a governança digital

O futuro do setor na Europa dependerá da clareza das políticas públicas. A incerteza sobre quais padrões serão exigidos nas aprovações de novos projetos pode retardar investimentos, mas, por outro lado, a falta de regras claras pode levar a uma crise de escassez que inviabilize futuras expansões.

O mercado deve observar como os órgãos reguladores europeus equilibrarão a necessidade de soberania tecnológica com as pressões locais por sustentabilidade. A eficiência, como sugere o setor, precisa deixar de ser uma escolha operacional para se tornar o padrão de crescimento obrigatório.

O desafio de conciliar a infraestrutura de dados com as limitações dos recursos naturais é apenas o início de uma discussão mais ampla sobre o custo da digitalização. A forma como a Europa decidirá priorizar o uso de sua eletricidade e água nos próximos anos servirá de modelo para outras regiões que enfrentam a mesma pressão de expansão tecnológica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register