A Europa pode estar focada em Donald Trump, mas a análise de risco geopolítico sugere que os maiores desafios para o continente nos próximos 12 meses virão de Rússia e China. A afirmação, aparentemente contraintuitiva, foi apresentada por Mujtaba Rahman, diretor-executivo para a Europa na Eurasia Group, a um grupo de mais de 100 embaixadores europeus. A relação transatlântica, embora marcada por tensões sob a administração Trump – com enfraquecimento da OTAN, ameaças tarifárias e incertezas sobre o apoio à Ucrânia –, está se tornando a parte mais estável do ambiente externo europeu. Isso não significa estabilidade, mas sim uma relativa previsibilidade em comparação com outros vetores de instabilidade.
O Fator Trump e a Falsa Estabilidade Transatlântica
A administração Trump introduziu um padrão de imprevisibilidade que abalou a confiança nas instituições multilaterais e na solidez das alianças. Ameaças de novas tarifas sobre produtos europeus, questionamentos sobre a defesa coletiva da OTAN e até mesmo visões expansionistas sobre territórios como a Groenlândia criaram um ambiente de constante alerta. No entanto, a própria natureza dessas ameaças, muitas vezes ligadas a negociações comerciais e a uma política externa de "America First", criou um tipo de dinâmica conhecida. A Europa aprendeu a navegar, ainda que com dificuldade, nessas águas turbulentas. A relação transatlântica, portanto, apresenta um cenário de "mais estável" porque os padrões de comportamento, embora problemáticos, são mais discerníveis do que as ameaças emergentes de outros atores globais.
A Ameaça Crescente da Rússia e da China
Enquanto a Europa se ajusta à retórica e às políticas de Trump, as ações da Rússia e da China representam desafios de natureza e escala diferentes. A agressão russa na Ucrânia continua a ser uma fonte de instabilidade direta e um teste à unidade europeia. A dependência energética de alguns países e a necessidade de manter um frente unida contra a expansão russa exigem um esforço contínuo e custoso. Paralelamente, a ascensão da China como potência econômica e geopolítica apresenta um dilema complexo. A busca por mercados e investimentos chineses contrasta com preocupações sobre práticas comerciais desleais, violações de direitos humanos e a crescente influência política de Pequim em fóruns internacionais e em países europeus. A interdependência econômica com a China, combinada com suas ambições globais, cria um cenário de risco multifacetado que exige uma estratégia europeia coordenada e robusta.
A Eleição Presidencial Francesa e a Fragmentação Europeia
Um dos elementos que mais agrava o cenário para a Europa é a possibilidade de uma vitória de Marine Le Pen na França. Uma liderança com tendências nacionalistas e eurocéticas em um dos países fundadores da União Europeia poderia desestabilizar ainda mais o bloco. A ascensão de Le Pen, ou de figuras com agendas similares em outros países, pode levar a uma fragmentação interna, dificultando a formulação de respostas unificadas às ameaças externas da Rússia e da China. A capacidade da Europa de projetar força e defender seus interesses depende intrinsecamente de sua coesão interna. Qualquer enfraquecimento dessa coesão, seja pela política americana ou pela ascensão de movimentos populistas internos, deixa o continente mais vulnerável.
Repensando a Segurança e a Economia Europeia
Diante deste cenário, a Europa é forçada a repensar suas prioridades. A dependência da segurança proporcionada pelos EUA, mesmo que com ressalvas, precisa ser complementada por um fortalecimento da defesa europeia. Economicamente, a diversificação de parceiros comerciais e a redução da dependência de mercados voláteis ou politicamente instáveis tornam-se imperativas. A análise de Rahman sugere que a complacência com a relação transatlântica pode ser perigosa se desviar a atenção das ameaças mais profundas e estruturais representadas por Rússia e China, especialmente em um contexto de potencial fragilidade interna europeia. A capacidade do continente de navegar por essas complexidades definirá sua posição no cenário global nos próximos anos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





