O Monte Everest, o pináculo do planeta, tornou-se um destino cada vez mais congestionado, refletindo uma transformação radical na prática do montanhismo de alta altitude nas últimas três décadas. Dados compilados pelo The Himalayan Database revelam um aumento impressionante no número de pessoas na montanha e nos cumes bem-sucedidos, com uma concentração cada vez maior de atividades em janelas de tempo muito curtas.

Em 2025, o número total de pessoas registradas no Everest atingiu 1.519, um salto significativo em relação aos 395 visitantes e trabalhadores registrados em 1995. A média anual de cumes bem-sucedidos entre 2021 e 2025 foi de aproximadamente 720, o que representa mais de sete vezes o número de cerca de 100 cumes anuais registrados entre 1995 e 1999. Esse crescimento exponencial não apenas destaca a crescente popularidade do Everest como um objetivo de montanhismo, mas também levanta questões sobre a sustentabilidade e segurança da escalada.

A Concentração Sazonal e o Colapso da Temporada

A escalada no Everest mudou drasticamente de um padrão distribuído ao longo do ano para uma concentração quase exclusiva na primavera. Nas décadas de 1980 e 1990, escaladas bem-sucedidas ocorriam em várias estações, incluindo outono e até mesmo inverno. No entanto, a partir dos anos 2000, mais de 99% dos cumes registrados ocorreram na primavera. Essa tendência se intensificou na década de 2010, quando apenas seis cumes foram registrados fora da primavera, e nenhum no inverno ou verão. Os dados de 2020 a 2025 mantêm esse padrão, com a vasta maioria das tentativas ocorrendo entre abril e maio.

Essa concentração extrema deve-se à busca por janelas de tempo com ventos favoráveis, geralmente em maio, antes da chegada do monção de verão. Quando essas condições ideais se apresentam, centenas de escaladores convergem para as rotas de cume em um período muito curto. Em 23 de maio de 2019, por exemplo, um recorde de 354 pessoas alcançaram o cume do Everest em um único dia, combinando expedições do Nepal e do Tibete. Essa aglomeração cria gargalos perigosos, aumentando o risco de acidentes e a pressão sobre os recursos limitados nas altitudes mais elevadas.

O Crescimento da Força de Trabalho e os Riscos Ocupacionais

Paralelamente ao aumento do número de clientes, a força de trabalho que suporta as expedições no Everest também cresceu exponencialmente. Em 1995, a proporção era de cerca de três trabalhadores contratados para cada cinco visitantes. Em 2025, essa relação se inverteu, com mais de 60% das pessoas registradas na montanha sendo trabalhadores contratados, a maioria deles Sherpas nepaleses. Esses profissionais carregam suprimentos, preparam acampamentos e auxiliam na fixação de cordas, desempenhando um papel crucial para o sucesso das expedições comerciais.

No entanto, esse crescimento também trouxe à tona os riscos ocupacionais inerentes a essa profissão. Anos como 2014 e 2015, marcados por tragédias como avalanches e o terremoto no Nepal, destacaram a vulnerabilidade dessa força de trabalho. Em 2014, todos os 17 óbitos registrados foram de trabalhadores contratados. Em 2015, eles representaram 11 dos 14 óbitos em expedições registradas. Embora esses anos tenham sido exceções devido a desastres naturais, eles sublinham os perigos diários enfrentados por aqueles que tornam a escalada do Everest possível para muitos.

A Pegada Humana e o Impacto Ambiental

O aumento do tráfego humano no Everest inevitavelmente leva a uma maior pegada ecológica. A gestão de resíduos em altitudes extremas é um desafio logístico e financeiro significativo. A exigência de que as expedições removam seu lixo é uma política importante, mas sua implementação é complexa. Na primavera de 2024, por exemplo, a Comissão de Controle da Poluição de Sagarmatha coletou 85 toneladas de resíduos do Acampamento Base do Everest e de acampamentos superiores, incluindo 27,53 toneladas de dejetos humanos. A crescente superlotação exacerba esses problemas ambientais, exigindo soluções mais eficazes e fiscalização rigorosa.

A escalada do Everest não é apenas um desafio esportivo, mas também um motor econômico vital para o Nepal. As taxas de permissão de escalada, que foram aumentadas para US$ 15.000 para a primavera de 2025, juntamente com os gastos com guias, hospedagem e outros serviços locais, geram receita substancial para o país. No entanto, a busca por maximizar essa receita pode, por vezes, entrar em conflito com a necessidade de gerenciar a superlotação e garantir a segurança e a preservação ambiental do pico mais icônico do mundo.

O futuro do montanhismo no Everest parece cada vez mais voltado para a gestão de um volume de pessoas sem precedentes. A concentração da temporada de escalada em janelas curtas, o aumento da dependência de uma força de trabalho de alto risco e a pressão crescente sobre o frágil ecossistema do Himalaia são desafios que exigirão atenção e ação contínuas das autoridades nepalesas, das agências de expedição e da própria comunidade de montanhistas. A busca pelo cume, antes uma aventura de poucos, agora se assemelha a uma operação logística complexa, onde o controle do fluxo e a minimização de riscos se tornam tão importantes quanto a própria escalada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist