A saga da Evergrande, a incorporadora que se tornou o epicentro da crise imobiliária na China, parece caminhar para um desfecho dramático. Hui Kan Yan, o fundador e ex-homem mais rico do país, foi sentenciado à prisão perpétua por crimes financeiros. Quase simultaneamente, um tribunal em Guangzhou aceitou o processo de liquidação da principal unidade operacional da empresa em território chinês.

Os movimentos sinalizam uma tentativa do governo chinês de encerrar o capítulo mais turbulento do seu setor imobiliário, que já representou um quarto da economia do país. Segundo reportagem da revista Fortune, a leitura de especialistas é que Pequim tem um “roteiro” para finalizar o caso. Contudo, a limpeza dos escombros de um colosso com US$ 300 bilhões em passivos está longe de ser uma tarefa simples.

O fim do 'grande demais para quebrar'

A condenação de Hui e a liquidação da unidade chinesa representam o prego final no caixão da narrativa de que a Evergrande era “grande demais para quebrar”. A ação coordenada das autoridades, que também sentenciou filhos do fundador e outros executivos, demonstra que Pequim está disposta a fazer uma limpeza exemplar, independentemente do tamanho do conglomerado. A queda começou em 2020, quando reguladores chineses impuseram limites ao endividamento excessivo no setor, deflagrando uma onda de quebras e uma crise de confiança que persiste até hoje.

A sentença de prisão perpétua, acompanhada do confisco de bens pessoais de Hui, serve como um aviso para o mercado. Para o Partido Comunista, a estabilidade social e o controle sobre os excessos do capitalismo de estado são mais importantes do que salvar bilionários ou conglomerados privados. A questão é que, ao desmontar o império, o governo deixa uma conta multibilionária nas mãos de credores.

Uma conta impagável

Para os investidores que apostaram nos títulos da Evergrande, a recuperação de capital parece uma miragem. A maior parte dos ativos da companhia está na China continental, sob um sistema legal distinto do de Hong Kong, onde um tribunal já havia ordenado a liquidação da holding do grupo em 2024. Liquidantes nomeados em Hong Kong, como a consultoria Alvarez and Marsal, têm capacidade limitada para acessar e vender esses ativos para pagar os credores.

A expectativa de especialistas, segundo a Fortune, é que a recuperação atinja, na melhor das hipóteses, um percentual de um dígito sobre o total devido. Enquanto isso, batalhas legais se multiplicam, incluindo um processo de US$ 8,4 bilhões contra a PwC por seu papel na auditoria das contas da Evergrande, que teriam inflado receitas em cerca de US$ 80 bilhões entre 2019 e 2020.

A queda de Hui Kan Yan é simbólica, mas os problemas estruturais que levaram ao colapso da Evergrande permanecem. A crise de demanda, o excesso de oferta em cidades menores e a desaceleração econômica geral da China são desafios que a prisão de um único homem não resolve. O capítulo da Evergrande pode estar se fechando, mas seus tremores secundários serão sentidos por um longo tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune