A cineasta austríaca Sandra Wollner consolida seu lugar como uma das vozes mais singulares do cinema contemporâneo com seu terceiro longa-metragem, Everytime. O filme, que teve sua primeira exibição recebida com atenção crítica, mergulha na complexa dinâmica de uma família destroçada por uma tragédia recente. A trama acompanha Ella, interpretada com densidade por Birgit Minichmayr, sua filha Melli e Lux, o ex-namorado da filha mais velha de Ella, Jessie, que faleceu após uma queda de um edifício sob efeito de entorpecentes.

Segundo reportagem do portal Little White Lies, a narrativa ganha contornos inesperados quando o trio decide realizar a viagem de férias em Tenerife que havia sido planejada antes da morte de Jessie. O que poderia ser um drama convencional sobre a superação do luto transforma-se em algo mais ambíguo e perturbador quando uma criança pequena, que parece ser Jessie aos três anos de idade, surge na vida dos personagens, fundindo passado e presente em uma linha temporal única.

A construção da dor no cinema de Wollner

Sandra Wollner construiu uma filmografia marcada pela investigação de temas difíceis e frequentemente tabus, como visto em seus trabalhos anteriores, The Impossible Picture e The Trouble With Being Born. Em Everytime, a diretora mantém sua assinatura visual e temática, optando por uma abordagem que evita o melodrama fácil em favor de uma atmosfera de estranhamento. A escolha de Tenerife como cenário, com sua estética saturada de sol e memórias sensoriais, serve como um contraste irônico à frieza da perda que os protagonistas carregam.

O uso de elementos fantásticos, como a aparição da criança, não é tratado como um evento sobrenatural grandioso, mas como uma manifestação psicológica da necessidade de negação. A obra questiona, de forma sutil, até que ponto a memória pode ser manipulada para permitir uma sobrevivência emocional mínima diante de um trauma insuperável. A cinematografia de Gregory Oke, que também trabalhou em Aftersun, desempenha um papel fundamental ao evocar a sensação de um sonho febril que ameaça se dissipar a qualquer instante.

A performance como âncora emocional

O grande trunfo de Everytime reside na atuação de Birgit Minichmayr. A atriz austríaca entrega uma performance contida, mas carregada de uma dor que transparece em silêncios e pequenos gestos. Minichmayr consegue transmitir o peso de uma mãe que oscila entre a necessidade de perdoar Lux — o último a ver sua filha viva — e a impossibilidade de esquecer o papel que ele desempenhou no contexto da tragédia. O elenco de apoio, composto por Lotte Shirin Keiling e Tristan Lopez, completa a dinâmica com uma vulnerabilidade que equilibra a performance central.

A força do filme não reside nos diálogos, mas naquilo que os personagens são incapazes de verbalizar. A tensão entre o que é dito e o que é reprimido cria um subtexto poderoso sobre a culpa e a responsabilidade. Wollner permite que o público sinta o peso do vazio deixado por Jessie, transformando a viagem em uma espécie de limbo onde a família, por um breve momento, finge que a tragédia nunca ocorreu.

Implicações de uma narrativa fantástica

Ao integrar o fantástico na estrutura do luto, o filme provoca uma reflexão sobre a natureza da cura. Enquanto a maioria das narrativas sobre perda foca no processo de aceitação, Everytime sugere que o desejo de retornar ao passado é, muitas vezes, mais forte que a realidade do presente. A obra desafia o espectador a considerar se o conforto momentâneo de uma ilusão é um mecanismo válido de sobrevivência ou apenas uma forma de prolongar o sofrimento.

Para o mercado cinematográfico, o filme reforça a tendência de produções europeias que utilizam o realismo mágico para tratar de questões humanas universais. A comparação inevitável com produções que exploram o luto familiar através de lentes visuais específicas, como Aftersun, coloca Everytime em um patamar de cinema autoral que exige paciência e reflexão do público, afastando-se das estruturas narrativas lineares de Hollywood.

O futuro das memórias ficcionais

O que permanece em aberto ao final da projeção é a sustentabilidade dessa negação. Wollner não oferece respostas fáceis sobre o que acontece com Ella, Melli e Lux após o retorno das férias. A voz em off de uma Melli mais velha, que olha para trás com a perspectiva do tempo, adiciona uma camada de melancolia que sugere que o trauma, embora transformado, nunca desaparece completamente.

A dúvida central que o filme deixa pairando é se a ficção — seja no cinema ou na mente dos personagens — é o único refúgio possível para quem perdeu algo irreparável. A trajetória de Sandra Wollner indica uma diretora que continuará a explorar as margens da experiência humana, desafiando as convenções sobre como o luto deve ser representado na tela. O espectador é convidado a observar não apenas a história, mas a forma como a própria memória é construída e desconstruída pelo tempo.

Everytime não se propõe a resolver o luto de seus personagens, mas sim a oferecer um espaço onde a dor possa ser habitada, ainda que de forma temporária. É uma obra que convida à contemplação sobre os limites do que podemos suportar e o poder da imaginação diante da finitude.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies