A precisão das pesquisas de opinião pública, um termômetro tradicional da política brasileira, tem sido questionada por Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente do Ibope. Após mais de quatro décadas liderando o instituto, Montenegro, agora aposentado, aponta falhas metodológicas que podem estar distorcendo os resultados, especialmente na atual eleição. Segundo ele, a dificuldade em entrevistar eleitores de direita e o acesso limitado a regiões marcadas pela violência podem estar levando os institutos a subestimar a vantagem de Bolsonaro sobre Lula. Mesmo com resultados que indicam uma disputa acirrada, como 51% a 49%, Montenegro sugere que a distância real entre os candidatos pode ser maior, interpretando esses números como mais próximos de 53% a 47%.

O Desafio da Coleta de Dados na Nova Realidade Brasileira

Montenegro detalha os obstáculos enfrentados pelos pesquisadores em campo. A crescente polarização política, que se intensificou ao longo das últimas eleições, tem gerado um ambiente de agressividade. Ele relata que muitos eleitores, percebendo que o entrevistador provavelmente votará na direita, se afastam, xingam ou até agridem. Essa reticência dificulta a obtenção de dados confiáveis, pois esses eleitores, embora identificáveis, não completam as entrevistas. Além disso, a metodologia de pesquisa por telefone também apresenta problemas, com dificuldades em acessar certos perfis de eleitores durante o dia e cadastros de celulares desatualizados. Em locais como o Rio de Janeiro, a situação é ainda mais crítica, com áreas dominadas por milicianos e traficantes, que representam uma parcela significativa do eleitorado, tornando a pesquisa praticamente impossível. Essa exclusão de segmentos importantes do eleitorado, segundo Montenegro, leva a uma distorção nos resultados, como visto em eleições anteriores onde houve grandes discrepâncias entre as projeções e os resultados reais.

A Tendência Estrutural da Centro-Direita e o Eleitor Silencioso

Além das dificuldades metodológicas, Montenegro identifica uma tendência estrutural de crescimento da centro-direita no Brasil e no mundo, que as pesquisas podem não estar capturando integralmente. Ele cita as eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024 como exemplos dessa movimentação. Para ele, a avaliação negativa do governo atual e a dificuldade da esquerda em se renovar contribuem para esse cenário. Montenegro também destaca a importância do chamado "eleitor silencioso", que não se manifesta em pesquisas ou em manifestações de rua. "Quem decide a eleição não está na rua: ele está em casa. É o eleitor silencioso que resolve", afirma. Ele argumenta que as manifestações populares, embora importantes, reúnem os eleitores mais engajados e convictos, que já têm sua posição definida. A verdadeira decisão eleitoral, segundo sua visão, emana desse eleitorado mais reservado, cujos votos são mais difíceis de prever e captar pelos métodos tradicionais de pesquisa.

Transferência de Votos e a Mudança no Cenário Político

Outro ponto de atenção para Montenegro é a transferência de votos dos candidatos derrotados no primeiro turno. Ele considera "esquisito" o cenário em que, após um primeiro turno com nove milhões de votos distribuídos entre candidatos de centro-direita, a soma desses votos não se reflete de forma mais clara no segundo turno. A análise de Montenegro sugere que, embora Lula tenha recebido um número considerável de votos, a maioria dos eleitores (aproximadamente 65 milhões) não votou nele, optando por Bolsonaro ou outros candidatos. Essa massa de eleitores representa um potencial significativo, mas não garante automaticamente sua migração para um único candidato. A avaliação negativa do governo Lula e a percepção de fadiga de material por parte do eleitorado em relação a políticos de "outra época" também pesam. Montenegro observa uma mudança estrutural no eleitorado, com o enfraquecimento de partidos tradicionais como o PSDB e o próprio PT, que sobrevive mais pela figura de Lula do que por sua força partidária.

O Futuro da Pesquisa e as Perguntas em Aberto

Diante desse cenário complexo, Montenegro reconhece a necessidade de adaptação. "Trabalhei a vida inteira com isso, adoro pesquisa, mas o mundo mudou e precisamos encontrar novas formas de medir a opinião pública", declara. Ele compara a evolução da pesquisa com a mudança no consumo de mídia, que deixou de ser centralizado na TV familiar para se tornar individualizado. A pesquisa eleitoral precisa, de alguma forma, acompanhar essa evolução. O que permanece incerto é qual será a metodologia capaz de capturar com precisão a opinião do eleitorado em um ambiente cada vez mais fragmentado e polarizado. Questões sobre a eficácia dos métodos atuais e a capacidade de prever o comportamento do eleitor silencioso continuam em aberto, exigindo reflexão e inovação por parte dos institutos de pesquisa.

Montenegro encerra a conversa com uma nota de cautela, lembrando que eleições são imprevisíveis e que o "salto alto" deve ser evitado. Contudo, sua análise aponta para uma fotografia do eleitorado que pode ser mais favorável à centro-direita do que as pesquisas mais recentes têm indicado, com o eleitor silencioso e a tendência estrutural de longo prazo como fatores decisivos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech